Economia
A queda das cédulas com o avanço do Pix
O dinheiro em espécie, que durante muitos anos dominou as transações financeiras, está passando por uma transformação profunda com o surgimento de novas tecnologias, como o Pix. Esse avanço nas formas de pagamento digital acelera a diminuição do uso das cédulas, mudando a maneira como os brasileiros relacionam-se com seu dinheiro. Diante desse cenário, fica a dúvida: as cédulas estão a caminho de se tornarem relíquias do passado?
Segundo o economista e consultor financeiro Tiago Monteiro, o Brasil está claramente em uma fase de transição financeira. “Estamos vivendo um momento inicial dos criptoativos e criptomoedas, e não sabemos o que ainda está por vir nos próximos 20 ou 30 anos. Muitas moedas do passado hoje são objetos de decoração, como o ‘réis’, ‘cruzeiro’ e ‘cruzado’. O mesmo pode ocorrer com o Real”, explicou.
Dados do Banco Central indicam que o dinheiro em papel corresponde a apenas 2% de todas as transações em 2025, enquanto o Pix responde por 51,1% das transferências. O uso das cédulas diminui anualmente em média 9,8%, ao passo que o Pix cresce em torno de 184,5% ao ano, refletindo a mudança no perfil do consumidor.
“A agilidade do Pix trouxe dinamismo para vendedores e consumidores com custos reduzidos. Esse sistema revolucionou a logística do dinheiro físico. Com a praticidade e segurança do Pix, ele foi amplamente adotado por todas as camadas sociais. Enquanto um método era burocrático e arriscado, o novo provou ser muito mais atrativo”, destacou Tiago Monteiro.
Se o ritmo de redução do uso do dinheiro físico continuar, espera-se que ele represente menos de 1% das transações financeiras por volta de 2030. No entanto, economistas alertam que a implantação de um sistema totalmente digital é um processo complexo e mais lento do que parece.
“Para a economia ser completamente digital, são necessários avanços em infraestrutura, inclusão digital e segurança contra fraudes. A exclusão financeira pode crescer, principalmente entre idosos, pessoas de baixa renda e sem contas bancárias, caso não sejam implementadas medidas eficazes de inclusão e proteção”, afirmou o economista Edgard Leonardo Lima.
Tiago Monteiro acrescenta que, historicamente, toda mudança nos meios de pagamento gerou exclusão.
“Quando passamos do escambo para os metais, isso aconteceu. O mesmo ocorreu da metal para o papel-moeda. Pessoas foram excluídas, resistiram à mudança e houve imposições. Tudo isso demanda tempo, cuidado, estratégia e cautela.”
Resistência ao dinheiro digital
Embora a tecnologia avance, o dinheiro físico ainda é usado por muitos brasileiros, como o aposentado Jorge Moreira, de 76 anos, que sente dificuldade em abrir mão das notas.
“Sinto-me muito mais seguro com dinheiro em espécie. Apesar de usar o Pix às vezes, ficar sem dinheiro físico tira de mim uma sensação de independência”, revelou.
Jorge Moreira prefere as cédulas em lugar do Pix.
Para ele, os pagamentos digitais esbarram em hábitos antigos de negociar, guardar e organizar as finanças manualmente, tornando a adaptação desafiadora.
A esposa de Jorge, Valdete, 81 anos, também resiste à digitalização, mesmo enfrentando dificuldades para receber troco.
“Uso muito dinheiro físico. Não tenho nada contra o Pix, que facilitou a vida de muitos. Já encontrei lojas que só aceitam Pix ou cartão, pois o estabelecimento não trabalha com dinheiro. Mesmo assim, não me sinto segura usando apenas moedas digitais. Se o dinheiro físico desaparecer, vou sentir falta.”
Valdete mantém o uso do dinheiro em papel por insegurança com as alternativas digitais.
Essa situação espelha o choque geracional na relação com o dinheiro. Enquanto os jovens lidam de forma simples e rápida com finanças digitais, os mais velhos carregam lembranças de instabilidade econômica do passado.
Tiago Monteiro explica: “O dinheiro é muito cultural, e as gerações mais velhas tiveram experiências negativas com inflação alta, confisco de poupança e congelamentos de preços. Com a chegada do Pix, bancos digitais e as novas gerações, o digital ganha espaço nos estudos, compras e pagamentos.”
Edgard Leonardo Lima complementa que o apego ao dinheiro físico tem forte componente emocional.
“Essas pessoas precisarão adaptar-se ao uso digital para guardar e movimentar dinheiro, o que exige suporte educacional e tecnológico para evitar insegurança e desconforto com o sistema financeiro. Acredito que convivemos ainda com as duas formas, física e digital, pois muitos não carregam mais carteiras, mas utilizam o celular para transacionar, enquanto outros realizam operações de valores altos em dinheiro.”
Desafios da inclusão digital
Com o aumento do uso dos serviços financeiros digitais, o Brasil ainda enfrenta o desafio de garantir a inclusão digital plena da população.
Pesquisa do IBGE estima que, em 2024, 20,9 milhões de pessoas com mais de 10 anos não possuem celular para uso pessoal, representando 11,1% da população nessa faixa etária, embora esse número esteja diminuindo.
Em 2019, o percentual era de 18,6%. Cerca de 30% dos que não usam celulares alegam dificuldade em manusear o aparelho como principal motivo.
Para fomentar a inclusão, a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Transformação Digital, Ciência e Tecnologia (SECTI) e da Rede Compaz, criou o programa Viva Mais Cidadania Digital, que oferece cursos para idosos ensinando o uso de smartphones, aplicativos, redes sociais, prevenção de golpes e acesso a serviços públicos online.
O secretário Rafael Cunha destacou: “É uma dinâmica social à qual não se pode resistir. As pessoas usarão cada vez mais serviços digitais. Precisamos aceitar essa realidade e promover a inclusão digital.”
Até 2025, mais de 350 idosos foram treinados, e o programa continua com previsão de atender mil pessoas com 60 anos ou mais, com 40 turmas disponíveis via Conecta Recife.
Cuidado contra fraudes
Com o aumento do uso digital, crescem as possibilidades de golpes e fraudes financeiras. Crimes como clonagem e roubo de contas de WhatsApp para solicitar transferências, golpes com falso suporte bancário pelo Pix e fraudes em compras online tornaram-se comuns.
O especialista em segurança cibernética Eronides Meneses alerta para a importância da prevenção.
“Em ambiente digital, a prevenção é mais eficaz do que qualquer tecnologia”. Entre as recomendações estão verificar a titularidade antes de confirmar um Pix, usar cartões virtuais temporários para compras online para evitar clonagem, e ativar autenticação em duas etapas em contas bancárias e WhatsApp.


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