Economia
Bancos ampliam crédito consignado privado, mas ajustes são necessários
Os principais bancos do Brasil intensificaram a oferta de crédito consignado para empregados do setor privado no início deste ano, após uma fase inicial de maior cautela com o programa de Crédito do Trabalhador. O setor ainda espera que questões operacionais no sistema do DataPrev, responsável pelo processamento dos empréstimos, sejam resolvidas, mas já houve um aumento na concessão dessa modalidade como estratégia para proteger os balanços contra o aumento da inadimplência e endividamento nacional.
Em março, a carteira de crédito consignado para trabalhadores do setor privado ultrapassou R$ 100 bilhões, um avanço de 142% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo dados recentes do Banco Central. Apesar desse crescimento, o volume representa pouco mais de 25% do saldo voltado aos servidores públicos, que soma R$ 384 bilhões, evidenciando potencial para expansão — o Brasil possui cerca de três vezes mais trabalhadores regidos pela CLT do que servidores públicos.
Essa modalidade é considerada mais segura para concessão de crédito pessoal, já que as parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento. Além disso, permite que parte do saldo do FGTS seja usada para abater a dívida em caso de demissão sem justa causa, diminuindo o risco de inadimplência e limitando as taxas de juros cobradas.
De acordo com a Maria Estela Ferraz de Campos, head de crédito da Integral Group, “o aumento da taxa Selic fez com que os bancos reduzissem a exposição ao crédito pessoal sem garantia, como cartões de crédito, e passassem a valorizar produtos em que o consumidor oferece alguma garantia, ou então o consignado”.
O ambiente atual cria diversas oportunidades para bancos, mas também intensifica a concorrência. Entre as grandes instituições, a disputa está centrada na conquista de empresas com grande número de funcionários, independentemente do relacionamento direto com clientes pessoa física, conforme explicou o vice-presidente de Finanças e Controladoria da Caixa Econômica Federal, Marcos Brasiliano Rosa. “Bancos com carteiras grandes de pessoas jurídicas estão investindo mais nesse segmento”, acrescentou em entrevista ao Broadcast, serviço de notícias do Grupo Estado.
A Caixa Econômica Federal, que foi participante da criação do programa, está ainda nos primeiros passos da implementação, com sua carteira de consignado CLT perto de R$ 9 bilhões. Embora esse valor seja uma fração dos R$ 114,2 bilhões totais do consignado, a instituição planeja expandir a concessão nos próximos meses.
Entre os bancos privados, o Itaú lidera o segmento, com sua carteira crescendo de aproximadamente R$ 12 bilhões antes do lançamento do programa para R$ 19,5 bilhões no primeiro trimestre e detendo cerca de 20% do mercado. Segundo o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, em teleconferência com analistas, o crescimento tem sido sólido e focado nos clientes adequados, visando rentabilidade.
O Bradesco também tem ampliado sua atuação no consignado privado, que representa atualmente cerca de 6% da carteira geral de consignados do banco. O saldo cresceu quase 43% em relação ao ano anterior, chegando a cerca de R$ 6,7 bilhões, equivalente a 6,6% do mercado total.
Atualizações no sistema DataPrev
Para sustentar o ritmo de expansão, os bancos cobram melhorias no sistema DataPrev, especialmente para garantir a portabilidade dos contratos entre instituições bancárias e facilitar a migração automática quando o trabalhador troca de emprego. Atualmente, esse processo requer a formalização de um novo contrato. O governo está trabalhando para que essa automatização ocorra, mas trata-se de uma tarefa complexa que envolve ajustes nos sistemas bancários.
Marcos Brasiliano, da Caixa, comentou que as atualizações começaram em maio e devem estar plenamente operacionais até setembro. “Mudanças relevantes já iniciaram em maio, podendo gerar efeitos a partir do mês seguinte”, afirmou.
Havia divergências entre bancos públicos e privados quanto ao acesso às garantias vinculadas ao FGTS, ponto essencial para consolidar o consignado privado. Enquanto o governo defendia a centralização via Carteira de Trabalho digital, o setor bancário preferia disponibilizar as garantias por seus próprios canais.
Para encontrar um meio-termo, o Ministério do Trabalho permitirá que os bancos ofereçam as garantias em seus aplicativos, mas com restrições específicas. Caso o empréstimo seja feito via Carteira de Trabalho digital, as condições serão mais flexíveis.
Controle sobre juros altos
No mês passado, o governo publicou uma portaria para combater o que consideram “taxas de juros abusivas”. A norma prevê sanções para instituições financeiras que cobrem juros acima de uma taxa de referência definida pelo Ministério do Trabalho e estabelece que o custo efetivo total (CET) das operações contratadas por meio de plataformas digitais deve ser limitado a 1 ponto percentual acima da taxa mensal de juros da operação. Em março, a taxa média anual do consignado CLT estava em 56,8%, cerca de 3,8% ao mês, segundo o Banco Central.
Analistas da agência Fitch apontam que as incertezas regulatórias e operacionais têm dificultado a expansão do consignado privado, apesar do seu potencial para os modelos de negócios dos bancos. Segundo eles, caso esses desafios persistam, haverá pressão para manter os juros elevados, maior cautela dos bancos na concessão e menor eficiência do mercado.

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