Economia
Índia e gigantes da tecnologia brilham na cúpula de IA enquanto governança global enfraquece
A Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial (IA) realizada em Nova Délhi, Índia, que terminou em 20 de junho, reuniu líderes governamentais, pesquisadores e representantes das maiores empresas de tecnologia, consolidando a Índia como uma opção intermediária entre os Estados Unidos e a China. O evento destacou anúncios significativos das grandes empresas do setor, mas relegou temas importantes como governança, concentração de mercado, sustentabilidade ambiental e direitos humanos a um segundo plano.
Com a participação de 250 mil pessoas, a conferência foi realizada pela primeira vez em um país do Sul global, incentivando nações dessa região a assumirem papéis de protagonismo nas discussões, especialmente diante da ausência de delegações de alto nível dos EUA e da China, o que beneficiou países buscando uma terceira via. A Índia, com o apoio do Brasil e da Suíça, destacou-se durante o evento.
Narendra Modi afirmou: “É fundamental democratizar a IA. Ela deve ser uma ferramenta para inclusão e empoderamento, particularmente para os países do Sul global. Humanos não devem ser reduzidos a dados”.
Embora a Índia possua tradição em tecnologia, seu avanço inicial em IA foi lento. Para mudar isso, o governo de Modi anunciou investimentos significativos, incluindo US$ 200 bilhões destinados a data centers nos próximos anos, com grande parte desse capital vindo do exterior — um movimento similar ao incentivo brasileiro pelo Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), focado em atrair data centers por meio de benefícios fiscais.
Além disso, o país destinou US$ 1,1 bilhão para um fundo estatal de capital de risco que apoiará startups de IA e manufatura avançada em todo o território. Startups indianas como Sarvam AI desenvolveram modelos de IA adaptados à realidade local. Outras empresas, como Neysa e C2i, receberam aportes internacionais, incluindo investimentos da Blackstone, que já investiu em Anthropic. O governo também lançou iniciativas para fomentar educação e criação de empregos no setor de IA.
As grandes empresas de tecnologia usaram a cúpula para anunciar investimentos focados no Sul global, buscando demonstrar que o investimento em IA não está restrito apenas às grandes potências. Líderes renomados do setor participaram do evento, como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google), Demis Hassabis (Google), Alex Wang (Meta), Brad Smith (Microsoft) e Dario Amodei (Anthropic). Contudo, Bill Gates desistiu de participar devido a controvérsias associadas.
Entre os anúncios, o Google commitou US$ 15 bilhões e a Microsoft US$ 17,5 bilhões para infraestrutura de IA. Anthropic e OpenAI também revelaram planos de abrir escritórios na Índia.
Desafios na governança da IA
O modelo atual de governança da IA, fragmentado e concentrado nas grandes empresas de tecnologia, não avançou para uma colaboração global eficaz. A Casa Branca rejeitou a proposta da ONU de criar um mecanismo internacional para governança da IA, alegando que uma abordagem centralizada e burocrática não promoveria um futuro promissor para a tecnologia.
Michael Kratsios, conselheiro de tecnologia da Casa Branca, declarou: “Rejeitamos totalmente a governança global da IA, pois acreditamos que a adoção da tecnologia não deve ser limitada por controles centralizados”.
Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, anunciou a criação de uma comissão para garantir o controle humano da IA, com 40 especialistas nomeados para um painel científico internacional independente.
Apesar disso, a versão inicial do documento final da cúpula indica um enfraquecimento do papel da ONU na governança da IA, o que gera preocupações.
Fernanda Campagnucci, diretora-executiva do InternetLab presente no evento, afirmou: “Ainda não há um espaço global consolidado onde países possam estabelecer regras mínimas e padrões comuns para IA, diferente do que ocorreu com a governança da internet. O Brasil aposta na ONU para essa coordenação, apesar do enfraquecimento promovido pelos EUA”.
Enquanto promessas bilionárias foram feitas, a percepção geral entre entidades civis é que o evento foi limitado e sem compromissos vinculantes.
Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil, ressaltou: “A cúpula foi restrita, sem utilizar métodos multissetoriais tradicionais de governança participativa”.
Bruna Santos, gerente de políticas públicas na WITNESS, espera melhorias para a próxima edição em 2027, destacando a importância do modelo multissetorial e a necessidade de incluir discussões sobre direitos humanos e reconectar os encontros de IA com a ONU.

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