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Israel admite mortes de civis perto de centros de ajuda em Gaza e investiga bombardeio
As Forças Armadas de Israel reconheceram que civis palestinos foram atingidos por tiros israelenses nas imediações de pontos de distribuição de ajuda na Faixa de Gaza, embora afirmem que as cifras apresentadas pelas autoridades locais são exageradas.
A declaração ocorreu após o jornal israelense Haaretz divulgar que soldados receberam ordens para atirar contra grupos desarmados próximos às instalações da Fundação Humanitária para Gaza (GHF), organização que entrou recentemente na entrega de suprimentos essenciais na região.
O Exército afirmou que reorganizou os acessos aos centros da GHF, incluindo a instalação de novas cercas e rotas alternativas. O uso de munição real ocorreu somente diante de ameaças diretas, especialmente quando grupos se aproximaram fora dos horários ou áreas permitidas. Nesses casos, um número reduzido de pessoas foi atingido, contestando alegações de dezenas feitas pelo Hamas.
No entanto, os militares admitiram que, em ao menos três situações graves, bombardeios de artilharia foram promovidos em áreas próximas aos centros para impedir a aproximação de palestinos, resultando em 30 a 40 vítimas, inclusive mortos. Após esses eventos, o Exército suspendeu os bombardeios nas zonas afetadas.
Relatos de soldados e testemunhos civis corroboram o uso de armamento pesado contra palestinos próximos a locais de distribuição de alimentos. Até sexta-feira passada, autoridades de saúde de Gaza reportaram 549 mortos e mais de 4 mil feridos desde o início das operações da GHF.
A distribuição de alimentos tem enfrentado dificuldades, com grupos grandes correndo aos pontos de ajuda em apenas quatro centros para uma população de dois milhões. O sistema foi descrito como caótico e ameaçador, com múltiplos incidentes ocorrendo nas proximidades durante seu primeiro mês de funcionamento.
Um soldado relatou ao Haaretz que mortes se tornaram rotina, com o uso de armas reais contra populações desarmadas, e que os disparos cessavam quando os centros estavam abertos para o acesso da população.
Mais de 130 organizações humanitárias e ONGs solicitaram o encerramento da GHF, condenando o modelo de atuação que, segundo elas, militariza a ajuda e coloca os habitantes de Gaza em risco constante para obter suprimentos básicos.
O sistema foi criticado também pela ONU, com o secretário-geral António Guterres qualificando-o como inseguro. O Exército anunciou a suspensão temporária do centro de Tel Sultan para construir uma nova estrutura que minimize conflitos e proteja as forças militares.
Investigação de bombardeio
Na terça-feira, as Forças Armadas de Israel informaram que investigam um ataque realizado na segunda-feira contra uma cafeteria na Cidade de Gaza, que causou ao menos 34 mortes. O governo israelense alegou que o alvo eram membros do Hamas, mas a imprensa palestina informou que não houve aviso prévio aos civis frequentadores do local.
O café al-Baqa, localizado próximo ao porto da Cidade de Gaza, estava repleto quando atingido por um míssil. Entre os mortos estavam o fotojornalista palestino Ismail Abu Hatab e o artista Frans al-Salmi. A jornalista Bayan Abu Sultan também sofreu ferimentos no ataque.
Testemunhas descreveram cenas de destruição, corpos dilacerados e feridos pedindo socorro. Fotografias registraram o impacto intenso do ataque e evidenciaram o uso de armamento pesado.
O porta-voz militar israelense afirmou que medidas foram tomadas para minimizar riscos a civis antes do ataque.
Israel intensificou os bombardeios em Gaza e ordenou evacuações em larga escala, forçando milhares a deixarem abrigos para áreas superlotadas e com recursos limitados. Cerca de 80% do território está sob controle israelense ou sujeito a essas ordens de evacuação.
O conflito atual começou após um ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel, em sua maioria civis. A resposta militar israelense já causou mais de 56.500 mortos palestinos, a maioria civis, e deslocou quase a totalidade da população da Faixa de Gaza, deixando grande parte da região destruída.


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