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Recursos hídricos colocam Brasil em posição de potência global, diz Marcos Troyjo
“O Brasil precisa se posicionar mundialmente como o ‘Vale da Água’. Estamos diante da oportunidade histórica para nos afirmarmos como superpotência alimentar global e referência em sustentabilidade”, disse o economista e ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (o Banco do Brics), Marcos Troyjo, em palestra apresentada no Fórum Geopolítica e Logística, promovido por Abrapa – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, AMPA e Aprosoja-MT, nesta quarta-feira, 10/09.
Troyjo destacou que a geopolítica mundial — marcada por tensões comerciais, guerras tarifárias e preocupação com segurança alimentar — abriu espaço para que o país, que de acordo com ele reúne vantagens competitivas únicas, amplie sua presença nos mercados internacionais. Entretanto, o economista alertou que não basta ser grande produtor de commodities. Para garantir maior retorno econômico e social, o país precisa investir em agregação de valor, ampliando a industrialização e a inovação no setor agropecuário. “Se quisermos transformar vantagem natural em desenvolvimento duradouro, é preciso ir além da produção bruta”, defendeu.
Para consolidar essa posição, o país também deve enfrentar questões estruturais, como melhoria de infraestrutura logística, segurança jurídica, acesso a capital e previsibilidade regulatória.b“Se aproveitarmos essa janela de oportunidade, o Brasil poderá ser não apenas fornecedor de alimentos, mas ator central na reorganização econômica global”, concluiu.
Crescimento populacional global = demanda por alimentos
Troyjo falou, ainda, sobre o aumento da população em países como Índia, Indonésia, Paquistão e em partes da África, que vai gerar maior demanda por alimentos. Isso, segundo ele, traz oportunidades para o agro brasileiro, se o país estiver preparado. “O mundo precisa e vai precisar ainda mais de alimentos, e o Brasil pode oferecer isso com segurança e qualidade”, afirmou.
O evento debateu os desafios que precisam ser superados agora para assegurar a competitividade e viabilizar a exportação dos produtos brasileiros com qualidade, segurança e agilidade.
Com programação de mais de oito horas de debate, o Fórum fez um paralelo da evolução das cadeias produtivas brasileiras e avanços em logística, sustentabilidade e infraestrutura, de olho na atual conjuntura geopolítica. O evento foi divido em dois painéis e uma palestra sênior.
Representantes do Ministério dos Transportes, Observatório IBI, Marinha e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), trataram sobre a diversificação dos modais de transporte e escoamento da produção nacional.
O segundo painel teve como tema a atuação das agências reguladoras, dos gargalos e obstáculos da infraestrutura de abastecimento do país, com porta-vozes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (ANEA) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Como convidados, representantes do agronegócio e indústria, tomadores de decisão e autoridades governamentais.
Logística é essencial para competitividade
Mato Grosso é o estado brasileiro que lidera a produção de soja, algodão e milho. Segundo estudo realizado pela Esalq-LOG em parceria com o USDA, em 2024, transportar grãos Mato Grosso até Xangai, na China, via Porto de Santos, custou em torno de USD 116/tonelada, dos quais 73% (USD 84) corresponderam ao trecho terrestre de aproximadamente 2.000 km até o porto. Os 27% (USD 32) restantes referiram-se à longa viagem marítima até a China. “O transporte interno encarece muito o produto brasileiro. Esse custo elevado está ligado tanto às distâncias quanto à ineficiência gerada pelo escoamento concentrado, e quem acaba pagando por essa conta é o produtor”, afirmou o Diretor Executivo da Associação Mato-Grossense de Produtores de Algodão, Décio Tocantins.
Para o presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon, gargalos logísticos atrapalham a competitividade do Brasil e impedem o produtor de continuar crescendo para atender a real demanda global de matéria-prima brasileira. “Os entraves na infraestrutura, como estradas em más condições, portos operando acima do limite e a falta de novos investimentos comprometem a capacidade do país de atender à crescente demanda. Enquanto essas barreiras persistirem, o país continuará perdendo espaço e competitividade em um cenário global que poderia sem muito mais vantajoso para o produtor brasileiro”, explicou Buffon.
Transnordestina fará primeira viagem após dez anos de obras
A ferrovia Transnordestina tem sua primeira viagem marcada: será no próximo mês, após dez anos de obras. A informação foi confirmada no Fórum, pelo superintendente de transporte ferroviário da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Alessandro Baumgartner.
O trecho de 680 quilômetros que está concluído liga Eliseu Martins (PI) até o início do estado do Ceará. Quando estiver concluída, a ferrovia terá 1,2 mil quilômetros de extensão, ligando o Piauí ao porto de Pecém (CE).
Ferrogrão – desafios jurídicos superados
Além da Transnordestina, Alessandro Baumgartner destacou a Ferrogrão, que tem leilão previsto para 2026 e deve ligar o estado de Mato Grosso a Miritituba (PA). A ferrovia deve encurtar distâncias e reduzir custos para o transporte de grãos do Centro-Oeste.
“Hoje, o produtor brasileiro enfrenta uma média de 1,2 a 1,5 mil quilômetros até chegar ao porto. Na Argentina, essa distância é de 300 a 400 quilômetros. Precisamos mudar essa realidade, e a Ferrogrão é uma resposta concreta a esse desafio”, afirmou o superintendente.
“Não há mais impedimentos jurídicos para que o processo avance. O próximo passo é manter o cronograma para que o leilão ocorra no prazo previsto”, disse.
Custo logístico da soja
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Maurício Buffon, reforçou a urgência de destravar os gargalos logísticos do país. Ele reforçou que a falta de infraestrutura encarece significativamente a competitividade brasileira frente aos concorrentes. “Pagamos um preço alto por uma série de atrasos que encarecem demais o chamado custo Brasil. Para se ter uma ideia, os Estados Unidos gastam cerca de 40% do que nós gastamos em logística de soja, enquanto a Argentina chega a 60%. Ou seja, já partimos com um deságio de quase 50% só no frete”, destacou Buffon.
O dirigente lembrou ainda que aproximadamente 30% do custo total da soja no Brasil está relacionado ao transporte. “É um peso enorme para o produtor, que reduz nossa competitividade global. Se tivéssemos feito o dever de casa em infraestrutura há anos, não estaríamos enfrentando os mesmos entraves hoje. Precisamos avançar, porque o setor produtivo não aguenta mais carregar essa ineficiência”, completou.

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