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Busca por tratamento para vício em jogos em São Paulo enfrenta desafios
Após perceber um aumento significativo na demanda por tratamento para vício em jogos de azar, a equipe do Metrópoles investigou os locais onde esse atendimento é disponibilizado em São Paulo. Apesar de o estado ser pioneiro no país ao contar com um programa de capacitação profissional e tratamento específico em centros especializados, a reportagem enfrentou uma verdadeira jornada na busca de informações.
Foram identificados, em seis dos sete locais visitados, falta de preparo e desinformação nos serviços públicos de saúde, totalizando cerca de 30 km percorridos durante essa busca. A equipe também foi alvo de comentários inadequados, como uma brincadeira sobre o rótulo de “viciado no tigrinho” feita, em tom de risada, por um agente público.
Somente na sétima unidade visitada, as orientações foram efetivas. Antes disso, a reportagem enfrentou vários encaminhamentos sem sucesso entre Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e outras instituições públicas de saúde.
O percurso começou no Caps AD Pinheiros, na zona oeste, onde o serviço não era oferecido e foi indicado o Caps Adulto Butantã, também na zona oeste. Ao chegar nessa segunda unidade, a equipe recebeu a orientação de procurar o Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (Caism), na Vila Mariana, zona sul, que só atende pacientes encaminhados por outras instituições de saúde. A recomendação seguinte foi buscar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Vergueiro, mas o atendimento ali é restrito a casos de emergência.
Depois disso, a reportagem foi enviada para a UBS Humaitá, que, por sua vez, indicou outra unidade do Caps, o Caps Itapeva, onde não foram fornecidas informações claras. A última tentativa foi no Caps Vila Monumento, local onde finalmente foram obtidas orientações concretas sobre o tratamento, ainda que a demanda para esse tipo de atendimento nunca tivesse sido registrada anteriormente naquela unidade.
Demanda crescente e preocupações
Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, o número de atendimentos relacionados ao transtorno do jogo triplicou nos últimos três anos. Entre janeiro e setembro de 2025, foram registrados 114 atendimentos na rede pública de São Paulo, um aumento significativo em comparação com anos anteriores.
No Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP), o Programa Ambulatorial do Jogo também registrou alta demanda, com triagens suspensas e uma fila de espera crescente, demonstrando a dificuldade para atender a todos os casos.
Edilson Braga, psicólogo e pesquisador do Ambulatório do Transtorno do Jogo do IPq, alerta para o risco de colapso do sistema público: “Estamos diante de uma situação crítica, com uma demanda muito alta e recursos insuficientes. O SUS poderá não suportar essa pressão”.
Contexto das apostas no Brasil
As apostas esportivas e cassinos online foram legalizados em 2018 e tiveram crescimento exponencial até abril de 2024, alcançando um mercado 730% maior. Em 2023, a regulamentação foi estabelecida por lei.
Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) indicam que 40 milhões de brasileiros realizaram apostas ou jogos online no último ano. O Banco Central estimou que em 2024 foram destinados R$ 240 bilhões a casas de apostas, sendo R$ 90 bilhões apenas no primeiro trimestre do ano corrente.
Sinais de vício em jogos de azar
O Ambulatório do Transtorno do Jogo do Hospital das Clínicas elaborou 12 perguntas para ajudar a identificar a dependência em jogos de azar. Responder afirmativamente a cinco ou mais dessas questões recomenda buscar ajuda especializada.
- Você costuma voltar a jogar para tentar recuperar perdas?
- Já afirmou estar ganhando dinheiro, mas na verdade estava perdendo?
- Já se sentiu culpado pelo seu comportamento em relação ao jogo?
- Já tentou parar de jogar, mas sentiu que não conseguiria?
- Já escondeu comprovantes ou dinheiro de jogo de familiares ou pessoas próximas?
- Já discutiu sobre sua gestão financeira por causa do jogo?
- Já pegou dinheiro emprestado que não foi pago devido ao jogo?
- Já usou empréstimos ou cartões de crédito para financiar o jogo ou dívidas relacionadas?
- Já vendeu bens pessoais ou familiares para sustentar o jogo?
- Já utilizou cheque especial ou cheques sem fundo para jogar?
Posicionamento das autoridades de saúde
A Secretaria Municipal da Saúde declara promover treinamentos contínuos para as equipes das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Atenção Psicossocial, incluindo capacitações e discussões de casos segundo as diretrizes do Ministério da Saúde.
Em São Paulo, as 479 UBSs são a porta de entrada para acolhimento, avaliação multiprofissional e encaminhamento das pessoas, e a rede conta com 103 Caps que atendem sem necessidade de agendamento.
Sobre os problemas apontados, a SMS informou que reorientará os profissionais do Caps Butantã e que a UBS Humaitá fará encaminhamentos adequados para o Caps de referência.
A Secretaria de Estado da Saúde apoia a implantação de políticas para tratamento da dependência em jogos de azar, oferecendo capacitação e apoio às equipes de saúde mental em todo o estado, e anuncia que nas próximas semanas serão realizadas ações para formação de profissionais e fortalecimento de parcerias.
Em relação ao Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental Vila Mariana, a secretaria esclarece que ele atende pacientes dependentes de jogos encaminhados pela rede básica, que é gerida pelos municípios.


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