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Conflitos, política e corte de verbas: Por que Lewandowski pediu demissão
A saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, que ainda será oficializada no Diário Oficial da União, começou a ser encaminhada há pelo menos três meses. Em novembro, o então ministro foi convocado às pressas para uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Belém, no barco onde o presidente despachava durante a COP-30. O tema era as ações do governo na segurança pública.
— Percebi que o senhor quer um xerife na segurança pública, e acredito que não tenho esse perfil — disse ele a Lula, colocando seu cargo à disposição logo após o encontro.
Uma semana antes, a polícia do Rio realizou a operação mais letal da história, com 121 mortes, e membros do governo pressionavam Lewandowski a divulgar mais as ações federais no Estado.
Segundo pessoas próximas, Lula respondeu que não queria um “xerifão” no estilo de Erasmo Dias na Segurança Pública — uma referência ao coronel da ditadura militar em São Paulo conhecido por posar armado e premiar policiais que matavam suspeitos.
Desde que assumiu em fevereiro de 2024, Lewandowski demonstrou um perfil conciliador e discreto, sem interesse em confrontos políticos. No entanto, com o ano eleitoral, o Planalto e o PT passaram a cobrar posturas mais incisivas, como as do ex-ministro e atual ministro do Supremo, Fávio Dino. A orientação era que ele participasse mais das redes sociais e concedesse entrevistas a cada operação da Polícia Federal. Lewandowski, contudo, não se via como esse tipo de figura pública e sequer tem perfil na rede X.
Lewandowski valorizava suas boas relações com diferentes setores, incluindo empresários, Judiciário, Legislativo e políticos de variadas ideologias. Uma das críticas do PT era que ele recebia no gabinete mais membros da oposição do que da base aliada. Ele sofreu menos ataques do que Dino, que enfrentou longas audiências e bastidores hostis.
O que mais incomodou Lewandowski nesse período foi o fogo amigo dentro do governo e do PT. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, é apontado como um dos principais articuladores de sua saída. As tensões entre eles se tornaram públicas durante a discussão da PEC da Segurança Pública, que demorou meses para ser enviada ao Congresso, ficando paralisada na pasta de Rui.
Em uma reunião tensa em novembro, Lewandowski ouviu que o governo planejava criar uma secretaria especial de segurança pública subordinada à Casa Civil e reagiu dizendo a Rui: — Se quiser a segurança pública, pode ficar com ela.
Enquanto o ministério ganhava destaque pela PEC e pelo PL Antifacção, o Planalto voltou a discutir dividir a pasta em dois ministérios, uma ideia rejeitada por Lewandowski. Um secretário comentou que não fazia sentido reduzir quase R$ 1 bilhão do orçamento e depois dividir o ministério.
Internamente, o ministro dizia se sentir desvalorizado e isolado nas negociações no Congresso, que esteve em conflito com o Executivo. Na PEC, por exemplo, houve mudanças que ele não aprovou, como a redução da maioridade penal, feitas sem reação da base aliada.
‘Para-raio de problemas’
Um secretário próximo a Lewandowski costumava dizer que o cargo de ministro da Justiça era um “para-raio de problemas”, que iam desde crises com imigrantes e protestos indígenas a reclamações por falta de energia e prevenção de ataques nas escolas.
A questão familiar também foi decisiva. Na carta de demissão entregue a Lula, ele explicou que a pressão para passar mais tempo com a família cresceu, especialmente diante dos desafios previstos para o ano eleitoral.
Logo no início do ano, Lewandowski ordenou guardar uma camisa do jogador polonês Lewandowski, presente da embaixada e exibida em seu gabinete, e uma foto antiga com sua mãe e Lula, ambos ainda com cabelo escuro, demonstrando seu desejo de deixar o cargo o quanto antes.
Na conversa com Lula na quinta-feira pela manhã, o presidente garantiu que a amizade de longa data continuava, e o ministro se colocou à disposição para ajudar na transição e na relação do governo com o Supremo e o Congresso. Ele alertou sobre os problemas de dividir o ministério.
Lewandowski percebeu que aquele foi o primeiro encontro privado com Lula desde sua entrada no governo. Em tom de despedida, foi o primeiro a discursar numa cerimônia, gesto visto como sinal de deferência do presidente. Saiu com a impressão de deixar o Executivo sem portas fechadas.

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