Economia
Novo momento para o comércio global
Após aproximadamente 25 anos em negociações, o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul — formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — recebeu ontem uma aprovação provisória pelos representantes europeus.
A notícia foi comemorada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais, que destacou a importância do acordo para o comércio mundial e o progresso econômico. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, classificou a iniciativa como um “passo essencial para um mundo mais integrado”.
O pacto prevê a eliminação gradual de tarifas de importação sobre cerca de 91% dos bens comercializados entre os dois blocos, respeitando as características produtivas de cada região e estabelecendo prazos mais longos para setores sensíveis.
A assinatura oficial do acordo Mercosul–União Europeia está prevista para sábado (17), segundo autoridades argentinas. Na União Europeia, o tratado será analisado pelo Parlamento Europeu e por alguns parlamentos nacionais, enquanto no Mercosul dependerá da aprovação dos congressos dos países envolvidos.
Mesmo antes da vigência do acordo, a União Europeia é um dos principais mercados para as exportações brasileiras. Com o novo cenário, estão previstas reduções ou eliminações de tarifas para produtos como carnes, açúcar, etanol, café, suco de laranja e itens do setor florestal, aumentando a competitividade brasileira.
Impactos econômicos
Economicamente, o acordo deve fortalecer o agronegócio brasileiro, permitindo a exportação em grandes volumes de carne, soja e frutas para o mercado europeu. Além disso, o Brasil deverá se beneficiar da importação de produtos manufaturados com tarifas menores ou isentas.
Conforme avalia Jorge Jatobá, sócio-diretor da Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan), o acordo ampliará a abertura econômica do Brasil, ainda pouco aberta em comparação a outros países. Ele ressalta que a indústria nacional enfrentará desafios e necessitará se adaptar para manter a competitividade.
“Alguns segmentos podem não resistir à competição e precisarão migrar para outras áreas, mas, no geral, haverá ganhos. A União Europeia já se comprometeu a compensar eventuais perdas dos agricultores europeus com créditos bilionários. Há tempo para ajustes, pois o acordo terá um período de transição e regulamentação,” destacou Jatobá.
Variação de preços
Se confirmado, os efeitos para os consumidores brasileiros devem ser sentidos ao longo dos próximos anos, principalmente na redução dos preços de produtos importados devido à eliminação das tarifas.
“Quando o acordo estiver completamente implementado, alguns produtos terão tarifa zero. Por exemplo, o vinho francês poderá ser adquirido sem impostos, e os europeus poderão consumir frutas brasileiras sem tarifas,” explicou o economista.
Jatobá também observou que a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros por parte do governo Trump foi um fator decisivo para a aprovação do tratado entre Mercosul e UE.
Setor agropecuário
Na área agropecuária, a União Europeia já figura como o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China. Para a fruticultura, os efeitos são muito positivos. Guilherme Coelho, presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), destaca que cerca de 70% das frutas exportadas pelo Brasil têm como destino a UE.
O principal benefício é a redução gradual das tarifas de importação (desgravamento). “Atualmente, frutas como melão e melancia pagam 10% de imposto ao chegar na UE. Com o acordo, essas tarifas serão reduzidas gradualmente até chegar a zero.” A uva terá tarifa zerada imediatamente após as etapas de aprovação final.
Coelho enfatiza que essa desoneração favorece tanto grandes quanto pequenos produtores, muitos dos quais se organizam em cooperativas para exportar. Pernambuco, liderado pela produção no Vale do São Francisco, destaca-se nas exportações nacionais de frutas, especialmente uva e manga.
Indústria
No setor industrial, o acordo prevê a redução imediata de tarifas para máquinas, equipamentos de transporte, motores, geradores de energia elétrica, autopeças e aeronaves, entre outros. Também gera oportunidades para setores como couro, peles, produtos químicos e pedras ornamentais.
Bruno Veloso, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), vê o acordo como uma via de mão dupla: “É uma oportunidade para abrir novos mercados. O mercado europeu é historicamente fechado para a América Latina, então esse livre comércio beneficia tanto exportadores quanto importadores.”
Comércio e serviços
Para o comércio e serviços, Bernardo Peixoto, presidente do Sistema Fecomércio/Sesc/Senac Pernambuco, destaca que o setor local precisa estar preparado para competir em um ambiente mais aberto. “Não há como fechar o mercado; a abertura exige atualização constante. O Brasil precisa aumentar sua produtividade.”
Peixoto acredita que o acordo também trará melhorias em logística, distribuição e geração de empregos, fortalecendo o comércio bilateral e criando novas oportunidades para Pernambuco.
Açúcar e etanol
O setor de açúcar e etanol, pressionado por tarifas impostas pelos Estados Unidos, ganha fôlego com o acordo. O Norte e Nordeste do Brasil terão mais liberdade para exportar açúcar com tarifas menores, graças ao pacto que favorece esses produtos no mercado europeu.
Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar e da NovaBio NE, explica que a UE frequentemente apresenta déficit na produção desses itens e costuma suprir essa demanda via importações com cotas. “O acordo bilateral permitirá ao Brasil desonerar e fomentar as exportações, assim como a UE já faz com países do bloco ACP (África, Caribe e Pacífico). Esse mercado tende a crescer para ambos os lados.”
O tratado define isenção de cotas para 180 mil toneladas de açúcar, 450 mil toneladas de álcool para fins industriais e redução de tarifas para 200 mil toneladas de etanol carburante. Segundo Cunha, o aumento das exportações pode incentivar a ampliação da produção nacional, incluindo produtos de valor agregado.
Ele destaca que a exportação crescente de etanol poderá contribuir para uma cadeia produtiva mais sustentável, com certificações ambientais rigorosas, especialmente para uso em combustíveis marítimos e aeronáuticos, alinhando-se à transição global por fontes limpas de energia.

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