Economia
Economia instável é maior preocupação dos CEOs no Brasil
A instabilidade econômica virou a principal preocupação dos líderes das grandes empresas brasileiras, ultrapassando temas que antes dominavam as discussões, como a escassez de profissionais qualificados. Essa mudança reflete um cenário de incerteza mais acentuada, fazendo com que os executivos adotem uma postura cautelosa quanto às expectativas de crescimento no curto prazo.
Segundo a CEO Survey, uma pesquisa anual da PwC que ouviu mais de 4.400 líderes em 95 países, apenas 38% dos CEOs no Brasil se mostram muito ou extremamente confiantes no aumento da receita nos próximos 12 meses, porcentagem menor que os 50% registrados no ano passado e acima da média global, que é de 30%.
A instabilidade econômica encabeça a lista de riscos no país, apontada por 38% dos executivos, seguida pela inovação tecnológica (31%) e pela inflação (29%), todas com índices de preocupação superiores às observadas no restante do mundo.
Embora a falta de profissionais qualificados tenha perdido o primeiro lugar na pesquisa, ela ainda é significativa, sendo apontada como risco por 29% dos CEOs brasileiros.
De acordo com Marco Castro, CEO da PwC, a diminuição da confiança se deve ao acúmulo de desafios sem solução, aumentando os riscos para as empresas. Para ele, o último ano foi marcado por mudanças em padrões macroeconômicos e geopolíticos que antes eram considerados estáveis, incluindo o aumento de tarifas, barreiras comerciais, bloqueios e sanções. A tecnologia, especialmente a inteligência artificial (IA), adiciona novas incertezas sobre o futuro:
— A instabilidade econômica lidera porque afeta diretamente a capacidade de investimento das empresas. É essa instabilidade que impede a captação de recursos, abertura de capital e acesso a mercados… A escassez de talentos continua sendo um obstáculo, mas muitas organizações estão diminuindo essa necessidade por meio da substituição por tecnologias e simplificação de processos.
Inteligência artificial ainda sem retorno claro
O receio sobre um futuro dominado por tecnologias de IA acompanha outro dado preocupante: mais da metade (56%) das empresas no mundo não conseguiu benefícios mensuráveis em receita ou redução de custos através dessa tecnologia. Globalmente, 29% registraram aumento de receita nos últimos 12 meses, comparado a 37% no Brasil. A redução de custos ocorreu em 28% das companhias nacionais e 26% globalmente.
Castro explica que isso acontece por ser uma tecnologia recente e ainda indefinido quais empresas fornecedoras vão liderar o setor:
— Ainda não está claro qual empresa vai se afirmar nesse segmento, o que cria hesitação para investimentos significativos em uma dessas IAs.
Ele menciona que algumas empresas já avançaram no uso da IA, saindo da fase inicial em que ela era aplicada apenas para traduções ou produção de textos, para a adoção estratégica na reformulação de processos e modelos operacionais.
Os dados indicam que mais de um quarto dos líderes brasileiros usam essa tecnologia em funções como geração de demanda (28%), suporte (28%), produtos e serviços (29%), definição estratégica (28%) e atendimento à demanda (20%).
— Muitas empresas começam a utilizar agentes inteligentes para redesenhar processos, ganhar eficiência e produtividade, criando novas oportunidades de investimento e negócios.
Expansão e novos setores
A pesquisa mostra que várias empresas adotam uma postura mais ousada para crescer. Mais da metade dos CEOs brasileiros (51%, contra 42% no mundo) afirma que suas empresas entraram em novos setores nos últimos cinco anos.
Essa diversificação tem potencial para aumentar margens de lucro, com a tecnologia destacando-se como principal área de expansão, tanto no Brasil (18%) quanto globalmente (12%).
Menos vagas para iniciantes
O levantamento indica que 60% dos CEOs brasileiros esperam precisar de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos por causa da IA, percentual superior à média global de 49%. Castro destaca que as empresas ainda não se preparam para as consequências desse cenário, como o aumento do desemprego jovem:
— Decidiram reduzir vagas, mas não se planejam para o impacto na formação, treinamento e desenvolvimento de carreira. As consequências aparecerão em breve, e poucas empresas estão preparadas.
Brasil atrai mais investidores
A PwC também observou que o interesse pelo Brasil na agenda global de investidores dobrou nos últimos dois anos, com intenções de investimento subindo de 3% para 6%, mantendo o país na 13ª posição. Esse crescimento está associado ao potencial em energia limpa e setores consolidados como agronegócio, finanças e tecnologia.
Segundo Castro, a mudança reflete uma reconfiguração global dos fluxos de capital, com vários locais mais fechados ou arriscados para investir.
Estados Unidos no foco
Cerca de metade dos CEOs brasileiros (49%) planejam investimentos no exterior, com os Estados Unidos como principal parceiro, citado por 55% dos executivos, ante 36% na pesquisa anterior. A China (de 10% para 18%) e a Índia (de 3% para 6%) também ganharam espaço.
Castro relaciona o avanço dos Estados Unidos ao esforço de reindustrialização, resiliência econômica e grande mercado consumidor. China e Índia se destacam pelo crescimento da renda média e mercado interno.
Riscos climáticos crescentes
A pesquisa revela que 40% dos CEOs brasileiros reconhecem que suas empresas podem sofrer perdas financeiras expressivas com as mudanças climáticas em 2026, índice próximo da média mundial (42%). Essa preocupação é maior no agronegócio (63%), energia e serviços públicos (57%), varejo (33%) e finanças (32%).
Apesar desse reconhecimento, menos da metade dos líderes afirma que suas empresas possuem processos adequados para considerar o risco climático nas decisões de cadeia de suprimentos (23%) e desenvolvimento de produtos (28%).

Você precisa estar logado para postar um comentário Login