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Economia

Queda no mercado cervejeiro pressiona troca de CEO na Heineken

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A saída do CEO global da Heineken, Dolf van den Brink, anunciada recentemente, acontece em um cenário desfavorável para o mercado brasileiro de cerveja, que enfrenta redução nos volumes e margens pressionadas.

Especialistas indicam mais dificuldades para a empresa, reacendendo questionamentos sobre a sustentabilidade dos investimentos e os obstáculos para a lucratividade no Brasil.

A mudança de liderança chama atenção pois ocorre durante a fase de expansão significativa da Heineken no país, com destaque para a planta em Passos (MG), que pretende adicionar aproximadamente 5 milhões de hectolitros anuais inicialmente.

No terceiro trimestre do ano anterior, a Heineken registrou queda de 4,3% no volume global de cerveja em comparação ao mesmo período de 2024, com uma retração ainda maior nas Américas, de 7,4%.

A empresa também revisou para baixo suas projeções de crescimento do lucro operacional orgânico em 2025, esperando que ele fique próximo do limite inferior estimado, entre 4% e 8%.

Essa desaceleração não é exclusiva da Heineken. A Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil) apontou uma diminuição entre 6,5% e 7% no consumo de cerveja no Brasil no período de janeiro a setembro de 2025, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Paulo Petroni, diretor-geral da entidade, projeta uma retração final para 2025 entre 5% e 6% no volume consumido.

“Os dados preliminares do IBGE indicam que não houve recuperação nos meses de outubro e novembro, portanto esperamos que o consumo caia de 15,5 bilhões de litros em 2024 para cerca de 14,7 bilhões neste ano, um recuo expressivo”, explicou.

Com o cenário mais negativo, a analista do Citi, Renata Cabral, acredita que a troca de comando na Heineken é um alerta importante para as operações brasileiras.

“A companhia continua investindo na expansão em um período de volumes excepcionalmente baixos, o que pode prolongar o retorno financeiro desses investimentos e levanta dúvidas sobre a velocidade dessa expansão no país”, destacou.

Fontes de mercado consideram que a queda nos volumes de cerveja na América Latina, especialmente no Brasil, contribuiu para a pressão que levou Dolf van den Brink a deixar o cargo.

Consumo em Queda

O principal motivo da retração no consumo é a menor frequência de situações propícias para beber cerveja. Segundo Paulo Petroni, “tivemos menos dias ensolarados, temperaturas mais baixas do que em 2024 e poucos feriados prolongados, aspectos que impactam diretamente o consumo”.

Além disso, a competição pelo orçamento dos consumidores aumenta, especialmente com apostas esportivas ganhando espaço, o que desvia parte dos gastos que seriam destinados à cerveja.

O cenário econômico também pesa: a redução da renda disponível, juros altos e mudanças progressivas nos hábitos de consumo afetam a demanda pela bebida.

Dados da NielsenIQ confirmam essa tendência, indicando uma queda de aproximadamente 4% no volume de cerveja vendido ao consumidor final entre janeiro e novembro de 2025, em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Gabriel Fagundes, diretor de Insights para a Indústria da NielsenIQ, explica que a diminuição não se deve à frequência de compras, mas sim ao menor volume consumido por ocasião.

“Os consumidores continuam comprando cerveja, porém adquirem menos litros por vez, ajustando seu orçamento”, afirmou.

Regulagem de Preços

Em meio a esse cenário fragilizado, a Heineken manteve os preços congelados desde abril de 2024 para preservar volumes, mas retomou aumentos em julho de 2025, com reajustes médios de cerca de 6%, indicando mudança na estratégia.

De acordo com a analista do Citi, Renata Cabral, a ausência prolongada de reajustes já apontava para um ambiente mais competitivo no segmento premium. Ela sugere que o portfólio premium da Ambev pode estar relativamente melhor posicionado, embora a fraqueza do mercado reduza, no momento, a intensidade da concorrência por participação de mercado. “Atualmente, todos disputam um mercado menor”, completou.

Perspectivas para 2026

Para o próximo ano, espera-se alguns fatores que podem estimular o consumo, como a Copa do Mundo, mais feriados, bases de comparação menos favoráveis e a previsão de clima mais quente.

Gabriel Fagundes ressalta, entretanto, que essas condições podem aliviar parcialmente a pressão, mas não indicam uma recuperação rápida dos volumes. “A melhora esperada está mais relacionada ao aumento das ocasiões de consumo do que à melhora do orçamento das famílias”, concluiu.

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