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Artigo – Caiado, o candidato a desistente

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Por Tábita Marinho

 

Nesta semana, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua saída do União Brasil.

Como justificativa, a inviabilidade de apoio por parte do UB à sua candidatura à presidência da República. Ao mesmo tempo em que anunciou sua saída, Caiado afirmou que não abriria mão de ser candidato, e que estava conversando com três partidos, entre eles o Solidariedade, que já tinha dado como certo o nome do governador como seu candidato ao Planalto.


Até aí, tudo certo. Nada mais justo e natural a essa altura do campeonato, quando o desenho da disputa eleitoral começa a ganhar traços mais fortes e essas movimentações são comuns.


Na noite do dia 27/1, Gilberto Kassab anunciou em suas redes sociais a chegada de Caiado ao PSD. Na foto do post, estavam os sorridentes Kassab, Caiado e os governadores do Paraná, Ratinho Jr. e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ambos filiados ao PSD – e ambos também ambicionando ser o nome da sigla à corrida presidencial. Kassab deixou bem claro: a decisão de qual dos três será candidato caberá a diálogos internos do partido.


Ninguém entendeu nada. De analistas políticos ao presidente do Solidariedade, Paulinho da Força, o anúncio de Caiado trouxe uma grande interrogação: como um político sai de um partido que não quer viabilizar sua candidatura para outro que além de também não garantir o espaço ainda o coloca na condição de candidato a candidato?


Em entrevistas a diversos veículos, Paulinho da Força, ao afirmar que está à procura de outro nome para o Solidariedade, chegou a dizer que Caiado “caiu no conto do vigário do Kassab”. Para ele, a ida do governador para o PSD é praticamente uma carta de desistência.
Uma coisa ficou bem evidente. Longe da jurisdição de Goiás – onde sua família ocupa lugares de poder na política há quase duzentos anos – Caiado é apenas um soldado aguardando as ordens de seu novo comandante.


Foi interessante assistir Caiado descendo de sua conhecida empáfia ao soltar, no dia 28/01, um humilde “não serei candidato a qualquer custo”, deixando claro que seu destino está totalmente nas mãos de Kassab – que em um passado não muito distante foi chamado pelo próprio Caiado de “cafetão do Planalto”.


A expressão nada republicana e muitos outros xingamentos a respeito do presidente do PSD foram apagados do Twitter de Caiado assim que ele anunciou sua ida ao seu novo partido, mas a internet não perdoa. Há prints das publicações circulando por todos os lados.


Analistas políticos, ao avaliarem declarações de Kassab, apostam em Ratinho Jr. como seu pretendente favorito à candidatura. Se essa previsão se concretizar, pode estar enterrado o projeto de Caiado a uma segunda eleição à presidência. Para quem não sabe, ele também foi candidato em 1989, na primeira eleição presidencial após o fim da ditadura civil-militar.


Sua campanha era anti-esquerdista, sob o manto do anticomunismo, do direito à propriedade e de motes como “nossa bandeira não é vermelha”. Nenhuma novidade, não fosse o toque místico – e cômico – que sua campanha ganhou.


À época, Caiado se apropriou de uma mensagem do médium Chico Xavier para sugerir que ele seria uma espécie de “Messias”, conforme trecho abaixo:


“Mas, no fim de tudo, vai aparecer um homem franco, sincero e leal, que, montado em seu cavalo branco, com sua poderosa espada, dará uma nova dimensão e personalidade ao Brasil, corrigindo injustiças e fazendo voltar a confiança e a esperança no futuro do Brasil.

Será combatido e criticado por seu temperamento e atitudes, mas contará com a proteção de forças supremas que habitam o cosmo. E o Brasil será verdadeiramente o coração do mundo”, dizia a mensagem na propaganda eleitoral na TV, enquanto Caiado aparecia, entre outras cenas, montado em um cavalo branco.


Nos dias atuais, a “profecia” de Chico Xavier também é, com alguma frequência, indevidamente usada por apoiadores de Jair Bolsonaro e da extrema-direita em canais de Whatsapp.


O fato é que, mesmo com cavalo, mensagens do além e discurso anticomunista, Caiado não empolgou o eleitorado brasileiro, que lhe concedeu, em 15 de novembro de 1989 somente 0,72% dos votos válidos em todo o país.


37 anos depois, Caiado soma cerca  menos de 2% de intenções de voto em cenários de primeiro turno, e se contenta com o posto de candidato a candidato.

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