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Famílias chinesas procuram filhos desaparecidos na época da política do filho único

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Três décadas depois do desaparecimento de seu bebê, Chen Mingxia ainda é assombrada pela lembrança de seu filho, uma das muitas vítimas do tráfico de crianças na China, resultado da preferência cultural por filhos homens durante o período da política do filho único.

Li dormia abraçado aos pais naquela noite quente de 1995, quando foi raptado, relata sua mãe, hoje com 52 anos, à AFP.

Sete ou oito homens invadiram sua casa na província de Cantão, no sul da China. Após serem agredidos e amarrados, os pais ficaram impotentes ouvindo o choro do filho.

“Levaram meu bebê” e desapareceram, relembra a mãe, com a voz emocionada e chorosa.

Ainda que não existam estatísticas oficiais sobre a dimensão desse fenômeno, estima-se que milhares de crianças tenham sumido dessa forma na China nas décadas de 1980 e 1990.

Na maioria das situações, essas crianças e seus pais verdadeiros foram vítimas de sequestradores que agiam sob encomenda de famílias desesperadas por ter um filho homem, segundo especialistas.

Os pais tendiam a abandonar ou até vender meninas não desejadas. Naquela época, a política do filho único era aplicada de forma rigorosa para controlar a superpopulação, promover o desenvolvimento econômico e combater a pobreza.

A política foi encerrada em 2016, mas atualmente o país enfrenta um declínio preocupante em sua população. Em 2025, a taxa de nascimentos atingiu o menor índice desde 1949, conforme dados oficiais publicados em janeiro.

Preferência por filhos homens

Nos dias após o rapto de Li, Chen Mingxia e seu marido saíam de casa antes do amanhecer para procurar o filho nas montanhas, que estava próximo de completar um ano.

Ela confidencia que seu maior desejo é reencontrá-lo. “É como carregar uma pedra enorme no peito. Se não o achar, será uma tristeza que carregarei para sempre. É uma dor imensa”, lamenta.

O tráfico de crianças era motivado por “um desejo profundamente enraizado de manter a linhagem patriarcal”, explica Jingxian Wang, pesquisadora do King’s College de Londres, à AFP.

Considerava-se que só um filho homem garantiria a continuidade da família, já que o sobrenome é transmitido pelos homens.

Xu Guihua, tia de um menino de quatro anos desaparecido em 1995, conta que seis crianças de sua rua na província de Guizhou sumiram entre o final dos anos 1980 e início dos 1990.

Seu sobrinho voltava sozinho do mercado onde a mãe vendia verduras, mas nunca mais chegou em casa.

“Naquela época, quem poderia imaginar que havia tanto traficante de pessoas? Não havia monitoramento”, afirma.

Ações recentes e novas formas de busca

Em 2024, as autoridades lançaram uma forte campanha contra o tráfico de pessoas, com várias sentenças de morte aplicadas — como a de Yu Huaying, executada em fevereiro de 2025 por sequestrar e traficar 17 crianças entre 1990 e 2000.

Os métodos de busca mudaram bastante. Enquanto nos anos 1990 os pais percorriam grandes distâncias, hoje recorrem às redes sociais.

Aplicativos populares como Xiaohongshu (similar ao Instagram) e Douyin (equivalente ao TikTok) estão cheios de publicações procurando por desaparecidos, com fotos, descrições físicas e datas do desaparecimento.

Xu Guihua narra que viajou por diversas províncias carregando cartazes com a foto do sobrinho para tentar encontrá-lo.

“Por que você não aparece? Por que não se mostra e nos encontra? Sua tia, seu pai e sua mãe te procuram em todo lugar. Sentimos muita saudade de você”, diz ela.

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