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O fim do orelhão: o legado do telefone público na cultura brasileira

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Criado pela Companhia Telefônica Brasileira (CBT) em 1971, o telefone público conhecido como orelhão foi desenvolvido pela arquiteta e designer sino-brasileira Chu Ming Silveira (1941-1997). Originalmente chamado Telefone de Uso Público (TUP) e com nomes técnicos Chu I e Chu II, o projeto inovador permitia até cinco cúpulas em um poste, que lembravam flores, inicialmente apelidadas pela criadora como “tulipas”.

Apesar dessa denominação, o apelido “orelhão” foi dado pela população nas ruas, em que o equipamento dominou a comunicação urbana por mais de 50 anos, estreando no Rio de Janeiro em 1972. Essa invenção marcou profundamente o cotidiano e o idioma brasileiro, introduzindo expressões populares como “cair a ficha”, que continuou a ser utilizada mesmo após a substituição dos discos metálicos pelos cartões na década de 1990.

O design icônico da cabine ovalada não só ganhou reconhecimento mundial, sendo adotado e adaptado por diversos países como Peru, Colômbia, Paraguai, Angola, Moçambique e China, mas também se tornou um símbolo da cultura brasileira.

Com a popularização do telefone celular nos anos 1990, o uso do orelhão diminuiu gradualmente, tornando-se obsoleto com a ampla adoção dos dispositivos móveis. Hoje, mais de 90% da população brasileira com mais de 10 anos possui celular, segundo dados de 2024 do IBGE, tornando o fim do telefone público inevitável.

Em 2023, as concessões para o serviço de telefonia fixa das empresas responsáveis pelos aparelhos públicos foram encerradas, e em 2024, a Anatel decidiu pela retirada da maioria dos cerca de 38 mil orelhões restantes, salvo em regiões sem cobertura de celular, até 2028.

O orelhão voltou a ganhar destaque graças ao cinema, especialmente no filme “O agente secreto” (2025), dirigido por Kleber Mendonça Filho. Com cenas e pôsteres que destacam a emblemática cabine, o longa-metragem, premiado em Cannes, indicado ao Oscar e vencedor de Globos de Ouro, reacendeu a nostalgia e valorizou a imagem do telefone público. Versões cenográficas foram instaladas em cinemas, e o orelhão tornou-se um símbolo visual e cultural presente até em fantasias de pré-carnaval.

Além desse filme, o orelhão figura em outras produções brasileiras, como “Dois filhos de Francisco” (2005), “Nosso sonho” (2023) e “Aumenta que é rock ’n’ roll” (2024), enriquecendo a ambientação urbana e referências dramáticas.

Na televisão, o aparelho marcou a memória cultural com suas aparições em novelas, e no humor, ganhou vida através do personagem Zé da Galera, interpretado pelo icônico Jô Soares (1938-2022), que eternizou a versão acrílica azul do orelhão com seu famoso bordão.

Na música popular, o legado de Chu Ming Silveira ressoa em letras que evocam a experiência do uso do telefone público, como nas canções de Chico Buarque, Seu Jorge e na parceria com Roberto Menescal para o filme “Bye bye Brasil” (1980). As composições capturam a atmosfera do tempo limitado das ligações nas cabines.

Nas artes visuais, o orelhão inspirou grafites, intervenções urbanas e instalações artísticas, como a Call Parade em São Paulo em 2012, que transformou cem aparelhos em obras de arte ao ar livre, além de performances e panfletagens que abordaram temas sociais usando a estética típica dos orelhões.

Atualmente, o orelhão é considerado um objeto de museu, podendo ser visto no Musehum no Rio de Janeiro e negociado para aquisição pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). A família da arquiteta mantém o site orelhao.arq.br para preservar e divulgar a história e o legado da criação. O filho de Chu Ming Silveira, o arquiteto Alan Chu, destaca a importância da memória correta da autoria e reconhece a nostalgia envolvida no fim da era dos orelhões, reforçando seu status de ícone nacional.

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