Economia
Americanas: ex-executivos venderam R$ 287 mi em ações antes do anúncio de rombo
A Polícia Federal identificou que o ex-CEO das Lojas Americanas, Miguel Gomes Pereira Sarmiento Gutierrez, a ex-diretora Anna Christina Ramos Saicali e outros ex-executivos da empresa comercializaram R$ 287 milhões em ações antes da divulgação, em janeiro do ano anterior, do déficit de R$ 25,3 bilhões nas contas da companhia decorrente de inconsistências contábeis.
Esse fato gerou a imputação aos ex-executivos pelo uso de informação privilegiada e outras acusações no âmbito da Operação Disclosure.
A defesa de Gutierrez divulgou uma nota afirmando que ele não participou de fraudes e está colaborando com as investigações. A defesa de Anna Christina Saicali ainda não foi localizada para comentários. A Americanas declarou que foi vítima de uma fraude interna cometida por sua antiga diretoria que manipulou intencionalmente os controles internos.
Os principais alvos da operação, realizados em 27 de junho de 2024, Gutierrez e Anna Christina Saicali estão foragidos.
O juiz Márcio Muniz da Silva Carvalho, da 10ª Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro, decretou a prisão preventiva dos dois executivos que se encontram fora do país. A Polícia Federal incluiu seus nomes na Difusão Vermelha da Interpol, que compreende a lista dos mais procurados.
A investigação demonstra que Gutierrez e Anna Christina Saicali venderam mais de R$ 230 milhões em ações da Americanas antes que as fraudes bilionárias fossem reveladas, com destaque para os meses de julho e outubro de 2022.
Segundo a Polícia Federal, Gutierrez estava diretamente envolvido nas irregularidades, participando do fechamento dos resultados e tendo a palavra final sobre os números apresentados ao Conselho de Administração e ao mercado.
A Procuradoria da República sustenta que há inúmeras evidências indicativas de que Gutierrez liderava a fraude, conhecendo os verdadeiros e os manipulados resultados, que foram usados como base para o recebimento de bônus milionários, contando ainda com a colaboração dos demais investigados.
Por sua vez, Anna Christina Saicali teria participado do processo de fechamento dos resultados, atuando como uma das principais articuladoras das supostas fraudes.
Negociações com Informação Privilegiada
A Operação Disclosure apontou que as vendas ocorreram nos seis meses que antecederam o anúncio do rombo financeiro, impactando significativamente o preço das ações da Americanas.
As transações suspeitas foram notificadas à Comissão de Valores Mobiliários.
De acordo com a Polícia Federal, a iminente descoberta da fraude e a troca do CEO em agosto de 2022 teriam motivado a venda antecipada de ações para minimizar perdas financeiras.
O Ministério Público Federal ressaltou que, com a notícia da substituição do CEO Gutierrez, os investigados temeram que as fraudes contábeis viessem à tona para o novo comando e passaram a administrar estratégias para reduzir os danos a serem comunicados.
O objetivo declarado pela Procuradoria era arrecadar R$ 15 bilhões por meio de artifícios fraudulentos.
Além de Gutierrez e Anna Christina Saicali, outros nove envolvidos participaram ativamente das fraudes e anteciparam a venda de ações para evitar prejuízos financeiros decorrentes da divulgação do fato relevante.
Outros suspeitos pelo suposto uso de informação privilegiada incluem José Timotheo de Barros, Márcio Cruz Meirelles, Fábio da Silva Abrate, Murilo Santos Corres, Carlos Eduardo Rosalba Padilha, João Guerra Duarte Neto, Jean Pierre Lessa, Santos Ferreira, Maria Christina Ferreira do Nascimento e Raoni Lapagese Franco Fabiano, com valores negociados que variam de centenas de milhares a dezenas de milhões de reais.
Em defesa, o advogado Sérgio Pinho, que representa Carlos Padilha, declarou que o tribunal reconheceu que ele e Murilo Santos Corres não venderam ações, mas realizaram operações de aluguel das mesmas.
Ele ressaltou que a venda foi informada incorretamente pela Comissão de Valores Mobiliários em relação às operações realizadas no segundo semestre de 2022 até a divulgação do fato relevante em 11 de janeiro de 2023.
Posicionamentos Oficiais
A Americanas reafirmou a confiança nas autoridades responsáveis pela investigação e reforçou ser vítima de fraude realizada pela antiga diretoria que manipulou os controles internos. A empresa confia na justiça e aguarda o desfecho das investigações para responsabilizar todos os envolvidos judicialmente.
A defesa de Miguel Gutierrez reiterou que ele não participou de qualquer fraude e está colaborando integralmente com as autoridades competentes.
A reportagem busca contato com a defesa de Anna Christina Saicali e demais investigados, deixando espaço aberto para manifestações.
O advogado Sérgio Pinho esclareceu que, segundo decisão judicial, Carlos Eduardo Rosalba Padilha e Murilo Santos Corres não efetuaram vendas, mas apenas aluguéis de ações, e que a comissão que relatou essas vendas incorretas se equivocou ao notificar as operações ocorridas entre o segundo semestre de 2022 e janeiro de 2023.

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