Brasil
Cientistas alertam sobre uso precoce da polilaminina para tratar lesões na medula
Nas últimas semanas, a polilaminina, molécula criada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o tratamento de lesões na medula espinhal, ganhou grande atenção na mídia e nas redes sociais. Porém, diversos cientistas pedem cuidado e ressaltam o risco de confundir uma pesquisa ainda em fase de testes com um medicamento já aprovado para uso clínico.
Em um editorial no Jornal da Ciência, Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e Helena Bonciani Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), destacam que o caso da polilaminina chamou atenção pública não só por seu valor científico, mas também por suas implicações institucionais, regulatórias e para a política de inovação.
Elas afirmam que o desenvolvimento dessa pesquisa expõe tensões no sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação, principalmente em aspectos relacionados à propriedade intelectual, validação científica, comunicação com a sociedade e conexão entre a produção científica e as políticas de saúde.
Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início dos testes clínicos para avaliar a segurança da molécula, o que gerou repercussão e levou a pedidos judiciais para acesso à polilaminina.
O editorial alerta para expectativas exageradas a respeito dessa tecnologia que ainda está em fase experimental. As cientistas ressaltam que em áreas como a neuroregeneração, o caminho desde a descoberta até a validação clínica e a eventual incorporação tecnológica é longo, complexo e depende da acumulação de evidências científicas.
“Divergências metodológicas, questionamentos sobre evidências, discussões sobre protocolos experimentais e validação são partes naturais do processo científico, especialmente em áreas inovadoras e complexas”, escrevem. Elas ainda afirmam ser fundamental fortalecer os sistemas de avaliação científica, a revisão por pares, a transparência metodológica e a governança da pesquisa, para evitar que disputas científicas sejam levadas prematuramente para os meios de comunicação ou à Justiça sem a devida mediação técnico-científica.
Além disso, defendem a necessidade de diferenciar claramente entre pesquisa básica, evidências consolidadas e aplicação clínica, e ressaltam a responsabilidade na comunicação dessas informações ao público para evitar mal-entendidos.
O editorial também destaca a importância de fortalecer a medicina translacional, enfatizando que, apesar do Brasil ter uma forte tradição em pesquisa básica, faltam mecanismos que integrem universidades, hospitais e outras instituições.
“Mais do que uma controvérsia científica específica, a trajetória da polilaminina expõe os pontos fortes e as fragilidades do modelo brasileiro de inovação em saúde. Entre os pontos fortes, estão a capacidade científica existente, o papel ativo das instituições públicas de pesquisa e os avanços institucionais na proteção do conhecimento. Já entre as fragilidades, destacam-se os desafios na validação clínica, na gestão estratégica da propriedade intelectual, na comunicação científica e na conexão entre ciência, regulação e inovação produtiva”, afirmam as autoras.

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