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Cubanos enfrentam momentos difíceis em Havana
Cubanos residentes em Havana dizem que o país está passando pelo momento mais complicado devido às dificuldades provocadas pelo aumento das restrições no bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos desde o fim de janeiro deste ano.
Os frequentes apagões, a alta nos preços dos produtos essenciais, a diminuição do transporte público e a redução na oferta da cesta básica subsidiada são alguns dos desafios que se agravaram recentemente.
A arquiteta Ivón B. Rivas Martinez, 40 anos, mãe solteira de um menino de 9, relatou que antes os cortes de energia eram programados, mas agora são imprevisíveis e duram mais tempo. Antes, a capital ficava cerca de quatro horas por dia sem energia, chegando depois a cinco, mas agora os apagões podem durar até 12 horas.
Em janeiro, o governo dos EUA ameaçou com tarifas os países que vendessem petróleo a Cuba, classificando a ilha como uma ameaça, devido ao alinhamento político com países como Rússia, China e Irã.
A situação é ainda mais crítica nas regiões rurais de Cuba, onde a energia pode faltar quase o dia inteiro, o que afeta o armazenamento dos alimentos e a rotina diária da população, segundo Ivón.
Para o economista aposentado Feliz Jorge Thompson Brown, 71 anos, tio de Ivón, este é o pior momento da história do país, superando até a crise da década de 1990, conhecida como ‘período especial’, quando Cuba sofreu com o colapso do bloco socialista e a perda de seus principais parceiros comerciais.
Feliz Jorge destaca que a crise atual é mais severa nos aspectos materiais e emocionais do que aquela experiência passada.
Os apagões afetam serviços essenciais como fornecimento de água, telefonia e internet, dificultando operações bancárias e serviços públicos. O preço dos alimentos básicos, como arroz, óleo e carne de frango, aumentou rapidamente nas últimas semanas.
Com cerca de 80% da energia proveniente de termelétricas movidas a combustíveis fósseis, o bloqueio dificulta a compra de petróleo, que já é limitada devido ao bloqueio naval dos EUA à Venezuela.
Feliz Jorge comenta que, diferente do passado, a juventude atual não vivenciou os primeiros anos da Revolução e que o Estado está com menos capacidade para oferecer a cesta básica integralmente subsidiada a toda a população.
A família do economista, composta por oito irmãos de descendência jamaicana, usufruiu dos benefícios da educação e saúde gratuitas de Cuba, e ele ressalta que o investimento estatal no esporte contribuiu para o sucesso cubano em competições internacionais.
O endurecimento do embargo por parte dos EUA é visto como uma tentativa de derrubar o governo comunista, que há mais de seis décadas mantém a hegemonia política na América Latina. Para o governo cubano, a medida é genocida, privando o povo de condições básicas para sobreviver.
Ivón critica a contradição do discurso norte-americano, que diz querer ajudar o povo cubano, mas na prática prejudica a população.
A pandemia da covid-19 agravou a situação econômica, devido à redução do turismo, principal fonte de renda do país. A crise energética e a escassez de combustível tornaram o cenário ainda mais difícil.
O transporte público em Havana foi significativamente reduzido, e o transporte privado tornou-se caro demais para a maioria das pessoas, limitando a mobilidade.
A saúde pública também sofre com a crise energética, com dificuldades no acesso a medicamentos e redução no transporte dos profissionais de saúde, levando ao cancelamento de consultas e priorização de atendimentos de emergência.
A educação tem conseguido manter suas operações, apesar da escassez de recursos, e a cultura segue presente, com crianças participando de atividades gratuitas próximas a suas casas, como a aula de música frequentada pelo filho de Ivón, Robin.
Ivón acredita que a política dos EUA não alcançará seu objetivo de mudança de regime, pois a população está mais preocupada em garantir sua subsistência e muitos jovens sonham apenas em emigrar, sem envolvimento em protestos.
Feliz Jorge conclui que o bloqueio é cruel e desumano, mas afirma que Cuba não está sozinha e continuará avançando em seu caminho.

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