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Conflito no Oriente Médio provoca onda de desinformação
Imagens reaproveitadas, cenas de jogos eletrônicos divulgadas como ataques verdadeiros, e visuais de combates criados por inteligência artificial: o ataque conjunto dos EUA e Israel ao Irã desencadeou uma grande quantidade de informações falsas, caracterizando o que analistas chamam de uma ‘batalha de narrativas’.
Desde os bombardeios americanos e israelenses ao Irã e as retaliações de Teerã que inflamaram a região, uma guerra informativa paralela começou a se desenvolver. Ambos os lados e seus apoiadores inundam as redes sociais com dados incorretos que frequentemente se espalham mais rapidamente do que as informações verdadeiras.
Equipes da AFP identificaram várias publicações de contas pró-iranianas que divulgavam vídeos antigos para exagerar os estragos dos ataques realizados por Teerã contra Israel e países do Golfo, como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
Moustafa Ayad, da ISD, uma organização não governamental sediada em Londres que combate a desinformação, afirmou à AFP que ‘certamente há uma disputa de narrativas online’.
‘Quer para explicar os ataques no Golfo, quer para enaltecer o poder militar iraniano frente aos ataques israelenses e americanos, os objetivos parecem ser desgastar os adversários’, explicou.
Do outro lado, veículos da oposição iraniana divulgaram relatos falsos no X e Telegram, atribuindo um ataque a uma escola de meninas no Irã diretamente ao próprio governo iraniano.
Contas falsas
O ISD também denunciou a presença de contas falsas que se fazem passar por altos dirigentes iranianos.
Ao mesmo tempo, trechos de videogames reaproveitados para simular ataques com mísseis, além de imagens geradas por IA mostrando navios de guerra americanos afundados, incluindo o porta-aviões USS Abraham Lincoln, acumularam milhões de visualizações.
Táticas parecidas de desinformação foram observadas em outros conflitos globais, como na Ucrânia e em Gaza.
‘O surpreendente é a rapidez e a escala dessas representações, que alimentam grande confusão online sobre o que realmente foi atacado e o número de vítimas’, disse Ayad.
De acordo com o grupo de monitoramento de desinformação NewsGuard, esses materiais visuais fabricados — que retratam o Irã como uma ameaça maior do que evidências locais indicam — somam mais de 21,9 milhões de visualizações apenas no X, plataforma de Elon Musk.
‘Obstáculo’
A plataforma X anunciou que irá suspender por 90 dias seu programa de monetização para criadores que compartilhem vídeos gerados por IA relacionados a conflitos armados, sem detalhar o motivo.
Nikita Bier, chefe de produtos do X, ressaltou: ‘Em tempos de guerra, é essencial que o público tenha acesso a informações autênticas no local. Com as tecnologias atuais combinadas com IA, é fácil criar conteúdos capazes de enganar as pessoas’.
Essa mudança chama atenção, especialmente porque a moderação de conteúdo da plataforma tem sido criticada firmemente desde a aquisição por Musk em outubro de 2022 por 44 bilhões de dólares.
Ari Abelson, cofundador da OpenOrigins, empresa britânica que combate vídeos falsos criados por IA, explicou: ‘A névoa da guerra rapidamente se torna um atoleiro informativo conforme conteúdos gerados por IA continuam a inundar o fluxo de notícias’.
‘É fundamental compreendermos as transformações no nosso ecossistema midiático’, enfatizou.
Um estudo do NewsGuard revelou que a ferramenta de busca reversa do Google forneceu resumos imprecisos gerados por IA de imagens enganosas relacionadas ao conflito no Oriente Médio.
Isso demonstra uma ‘grande vulnerabilidade em um sistema muito usado para verificar a veracidade das imagens’, destacou o NewsGuard.
Até o momento, o Google não respondeu aos pedidos de comentário da AFP.

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