Brasil
Armas com impressoras 3D: operação prende engenheiro e cúmplices em SP
Uma quadrilha que atuava em 11 Estados brasileiros estava envolvida na fabricação e venda de armamentos produzidos por impressoras 3D. Entre os produtos estavam pistolas semiautomáticas que eram distribuídas para compradores em São Paulo, Rio de Janeiro e outros nove Estados.
Uma operação conjunta envolvendo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, o Ministério Público estadual (MPRJ) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública resultou na prisão de quatro suspeitos, incluindo o suposto líder do grupo criminoso. O engenheiro e seus três comparsas foram detidos no interior de São Paulo, com apoio da polícia local. A reportagem busca contato com as defesas dos investigados.
A Operação Shadowgun foi deflagrada após a investigação revelar um grupo organizado dedicado à produção e difusão de armas de fogo feitas por meio da impressão 3D. Conhecidas como “armas fantasmas”, essas armas não podem ser rastreadas e são montadas com materiais de fácil acesso.
O alerta para a investigação veio de um órgão internacional que compartilhou informações com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) do MPRJ sobre um usuário suspeito em uma rede social que desenvolvia e comercializava esses armamentos.
As investigações mostraram que o líder do grupo é um engenheiro especializado em controle e automação, responsável pelo desenvolvimento técnico dessas armas. Sob um pseudônimo, ele publicava vídeos de testes balísticos, atualizações nos designs, orientações para calibração e montagem das armas e informações sobre materiais de impressão.
Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que ele elaborou um manual com mais de 100 páginas que detalha todas as etapas para a fabricação das armas, permitindo que qualquer pessoa com conhecimento intermediário em impressão 3D pudesse produzi-las usando equipamentos acessíveis.
O produto principal do grupo era uma pistola semiautomática produzida em impressora 3D, com componentes ilegais. O projeto era divulgado amplamente junto de um manual técnico e um manifesto ideológico que defendia o porte irrestrito de armas, circulando em redes sociais, fóruns e na dark web, criando um ambiente clandestino para a produção e circulação dessas armas.
O líder também incentivava a fabricação das armas e utilizava criptomoedas para financiar suas operações. Ele fabricava carregadores alongados em sua casa para pistolas de vários calibres e vendia o material em uma plataforma online. Seus três comparsas colaboravam na construção e disseminação dos projetos. Todos foram presos.
Em São Paulo, a ação teve o apoio da Polícia Militar local e do Ministério Público estadual, realizando operações em Piracicaba, Rio das Pedras, Saltinho e Tambaú, com o 10º Batalhão de Ações Especiais (Baep) e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP de Piracicaba.
Foram apreendidas na operação oito armas de fogo — pistolas, revólveres e fuzis —, além de protótipos caseiros, centenas de munições de variados calibres, balestras, granadas, coletes e capacetes balísticos, além das próprias impressoras 3D usadas para fabricar os armamentos, o que demonstra o alto potencial ofensivo do grupo.
O engenheiro vendeu o material para 79 compradores entre 2021 e 2022, que depois passaram a negociar por outros meios. Estes compradores estão distribuídos por 11 Estados brasileiros, a maioria deles com antecedentes criminais relacionados a tráfico de drogas e outros crimes graves.
No Rio de Janeiro, houve a identificação de 10 compradores em diferentes regiões, como São Francisco de Itabapoana, Araruama, São Pedro da Aldeia, Armação dos Búzios e na capital. A Polícia Civil investiga para onde essas armas estão sendo direcionadas, suspeitando que possam estar nas mãos de organizações criminosas e milícias. Um dos compradores já está preso, flagrado com grande quantidade de armamentos e munições.
Seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos no estado do Rio, em endereços ligados aos compradores, incluindo regiões do interior e da Região dos Lagos, e também na capital, com o apoio da Corregedoria da Polícia Militar.
Os mandados foram autorizados pelo Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos do MPRJ. Segundo o Ministério Público, a apuração aprofundou-se na crescente fabricação caseira e comercialização de armas feitas com peças plásticas fabricadas por impressoras 3D.
Os acusados responderão por crimes como comércio ilegal de armas, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

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