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Afeganistão culpa Paquistão por ataque aéreo que matou quase 400 em centro de reabilitação em Cabul
O Afeganistão acusou o Paquistão nesta terça-feira (17) de ser responsável por um ataque aéreo que resultou na morte de quase 400 pessoas em um centro de tratamento para dependentes químicos localizado em Cabul.
Na noite de segunda-feira, o Paquistão lançou ataques aéreos na capital afegã, afirmando que os alvos eram instalações militares e grupos terroristas.
Os dois países estão em tensão há vários meses. Islamabad alega que combatentes do movimento Talibã do Paquistão (TTP), responsáveis por ataques em seu território, se refugiam no Afeganistão, o que é negado pelas autoridades afegãs.
Sharafat Zaman, porta-voz do Ministério da Saúde do Afeganistão, informou que “o número final de vítimas ainda não foi confirmado; as operações de resgate prosseguem, mas quase 400 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas”.
Hamdullah Fitrat, vice-porta-voz do governo afegão, também mencionou o número de cerca de 400 mortos.
Durante a noite, jornalistas da AFP testemunharam pelo menos 30 corpos e muitos feridos no local do centro médico.
Dejan Panic, diretor do hospital da ONG italiana Emergency no Afeganistão, onde vários feridos estão recebendo atendimento, expressou preocupação de que o número de mortos possa aumentar, já que o centro atendia muitos pacientes em recuperação da dependência química.
Abdul Mateen Qani, porta-voz do Ministério do Interior, comentou que “alguns corpos são impossíveis de serem identificados” e anunciou que cerimônias fúnebres coletivas serão realizadas para as vítimas.
Na manhã seguinte ao ataque, mais de 100 pessoas estavam no local buscando notícias de familiares internados no hospital, que segundo fontes médicas, atendia entre 2.000 e 3.000 dependentes.
Habibullah Kabulbai, 55 anos, disse entre lágrimas: “Estou aqui desde ontem à noite, procurando meu irmão, mas não o encontro. O que posso fazer?”.
Seu irmão, Nawroz, estava internado há cinco dias. “Estamos desesperados. Isso não acontece apenas comigo, mas com todo o Afeganistão”, acrescentou, ao lado de outras famílias à procura de informações.
As buscas por sobreviventes e cadáveres continuam, enquanto o teto de um dos prédios do centro médico desabou.
Azmat Ali Momand, médico de 30 anos, ficou ferido no ataque. Ele relatou: “Eu havia acabado de examinar os pacientes e estava realizando as abluções antes da oração quando a explosão aconteceu. O teto caiu sobre mim”.
Os bombardeios ocorreram durante a madrugada, causando grande pânico na população local.
O governo paquistanês declarou que suas forças tentam evitar causar danos civis.
Após uma escalada de conflitos em outubro que causou dezenas de mortes, as tensões diminuíram, mas aumentaram novamente em 26 de fevereiro, quando o Paquistão lançou uma série de ataques.
No dia 27 de fevereiro, Islamabad declarou uma “guerra aberta” e realizou ataques em Cabul no mesmo dia.
De acordo com a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA), entre 26 de fevereiro e 13 de março, 75 civis foram mortos e mais de 115.000 famílias foram deslocadas nas províncias do leste e sul.
O Paquistão também reportou perdas civis em sua população.
Michael Kugelman, especialista do Atlantic Council, destacou que “os esforços diplomáticos recentes fracassaram e os países do Golfo estão atualmente focados em seus próprios conflitos”, não prevendo um fim próximo para o impasse.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU alertou que a instabilidade contínua poderá levar milhões de pessoas no Afeganistão a enfrentar níveis ainda maiores de fome e sofrimento.

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