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Trump negocia com Irã e suspende ataques
O presidente Donald Trump mudou seu discurso nesta segunda-feira (23), no vigésimo quarto dia do conflito com o Irã, ao anunciar que os Estados Unidos estão em negociações com um alto representante iraniano e interromperam de forma repentina ataques planejados contra infraestruturas importantes da república islâmica, apesar de Teerã negar qualquer conversa.
Esse anúncio surpreendente ocorreu antes do prazo final, na noite desta segunda-feira, estabelecido por Trump para que o Irã reabrisse a rota marítima do estreito de Ormuz, sob a ameaça de que os Estados Unidos poderiam destruir suas usinas elétricas.
Após as declarações de Trump, os preços do petróleo caíram e as bolsas de valores subiram, mesmo com a negativa do Irã.
A plataforma Axios indicou que Mohammad-Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e uma das figuras civis mais proeminentes do país, é o interlocutor de Trump.
No entanto, Ghalibaf declarou no X que “não há negociações” em andamento e acusou Trump de tentar “manipular os mercados financeiros e de petróleo para escapar da situação difícil em que os Estados Unidos e Israel se encontram”.
A chancelaria iraniana confirmou que recebeu mensagens de “alguns países amigos” mencionando um pedido dos EUA para negociações visando acabar com o conflito, mas negou que as conversas tenham ocorrido, segundo a agência oficial Irna.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou ter falado com Trump e demonstrou intenção de continuar ataques no Irã e no Líbano. Logo em seguida, o Exército de Israel anunciou novos bombardeios contra alvos do grupo islâmico Hezbollah em Beirute.
Embora Omã tenha atuado como mediador em conversas indiretas entre EUA e Irã antes da ofensiva militar iniciada em 28 de fevereiro, países como Egito, Catar e Paquistão são citados como possíveis mediadores alternativos.
“O mais respeitado”
Trump revelou que seu governo mantém diálogos com uma “pessoa de alto nível” não identificada, mas não com o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, que se acredita estar ferido.
“Eliminamos a liderança (…). Porém, estamos falando com o homem que considero o mais respeitado e líder”, disse Trump.
Ele descreveu esse indivíduo como “muito razoável”, mas alertou que, se as negociações falharem nos próximos cinco dias, os bombardeios continuarão com toda a força.
Milhares de fuzileiros navais dos EUA estão a caminho do Oriente Médio, enquanto se especula que Trump avalie operações terrestres para controlar campos petrolíferos iranianos ou reabrir à força o Estreito de Ormuz.
Ameaça séria
Desde o início do conflito, o Irã respondeu aos ataques dos Estados Unidos e Israel bloqueando efetivamente o estreito, que transporta um quinto do petróleo mundial, além de atacar instalações energéticas na região do Golfo, embaixadas americanas e alvos em Israel.
O diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, alertou que, se o conflito se prolongar, a perda diária de petróleo poderá causar uma crise ainda pior do que os choques petrolíferos dos anos 1970 e a invasão da Ucrânia pela Rússia.
“A economia global enfrenta uma ameaça muito grave”, declarou Birol.
Os preços do petróleo, que ultrapassaram 100 dólares por barril devido ao conflito, caíram bruscamente após as declarações de Trump, enquanto as bolsas de valores subiram.
O Brent, referência internacional, recuou cerca de 10,9%, para 99,94 dólares por barril, e Wall Street fechou em alta, algo não visto desde 17 de março.
Trump declarou que já existem “pontos importantes de acordo” com os negociadores iranianos, incluindo a renúncia do Irã a ambições nucleares e a entrega de suas reservas de urânio enriquecido.
O presidente americano reiterou ainda a meta de uma “mudança de regime” no Irã, buscando uma relação semelhante à mantida com o governo interino da Venezuela após a captura do presidente Nicolás Maduro.
“Olhem para a Venezuela, como está indo bem. Tudo está funcionando muito bem, com o petróleo, e a relação com a presidente interina, Delcy Rodríguez. Talvez encontremos alguém assim no Irã”, afirmou.
Campanha terrestre no Líbano
Trump estabeleceu prazos e objetivos variados para o conflito; na sexta-feira mencionou considerar “reduzir” as operações, para depois ameaçar atacar as usinas elétricas do Irã, das quais o país possui mais de noventa.
Netanyahu falou em uma campanha prolongada contra o governo iraniano, apoiador do grupo islâmico Hamas, que iniciou o ataque de 7 de outubro de 2023 que desencadeou a guerra em Gaza.
Em solo libanês, Israel intensificou sua ofensiva terrestre contra o movimento Hezbollah, alinhado ao Irã, e alertou para “semanas de combates”.
Os ataques israelenses no Líbano já causaram mais de mil mortes e deslocaram mais de um milhão de pessoas, conforme dados do Ministério da Saúde libanês.
O Exército de Israel informou na segunda-feira ter capturado dois membros do Hezbollah no sul do Líbano após rendição.
O conflito resultou em pelo menos 3.230 mortos iranianos, incluindo 1.406 civis, segundo a agência Human Rights Activists News Agency, sediada nos Estados Unidos.
A AFP não conseguiu confirmar de forma independente as estatísticas de vítimas no Irã.

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