Brasil
CNJ solicita investigação contra desembargador ligado a tenente-coronel acusado de matar esposa
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) requisitou a abertura de uma apuração para avaliar a conduta do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, que esteve presente com o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto logo após o falecimento da esposa do militar, Gisele Alves Santana, ocorrido em 18 de fevereiro, em São Paulo.
O pedido foi formalizado na última quinta-feira (19) junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), com o intuito de obter mais detalhes sobre a postura do desembargador, conforme comunicado do CNJ. A investigação tramita sob sigilo. Até o momento da publicação, Cogan não havia se pronunciado, mantendo o espaço aberto para possíveis declarações futuras.
A solicitação de apuração partiu da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que acionou o conselho sugerindo a instauração de procedimento disciplinar contra o desembargador por suposta violação da imparcialidade.
Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, de 66 anos, esteve no apartamento que o casal Geraldo e Gisele compartilhava, na região do Brás, centro da capital paulista, minutos após do disparo que atingiu a policial na cabeça. O tenente-coronel alegou que entrou em contato com o magistrado por serem amigos próximos, justificativa também confirmada pelo próprio desembargador em seu depoimento policial.
O desembargador chegou ao local às 9h07, horário em que a vítima já havia sido levada ao hospital, onde foi confirmada sua morte por volta do meio-dia. Registros de câmeras mostram Cogan no corredor do edifício, trajando camisa azul e óculos escuros.
Em seu depoimento na condição de testemunha à Polícia Civil, ele relatou ter sido chamado pelo tenente-coronel, que informou sobre o suposto suicídio da esposa e pediu sua ajuda.
Cogan afirmou que o militar desejava retornar ao apartamento para se higienizar, apesar da recomendação dos colegas policiais para que não alterasse a cena do crime, o que poderia prejudicar as investigações. Mesmo assim, Geraldo Neto desobedeceu e tomou banho.
O desembargador declarou ainda que, enquanto aguardava fora do apartamento, não viu quando o tenente-coronel entrou no banheiro. Já na garagem, o militar reiterou a versão do suicídio e, segundo Cogan, apresentou uma crise emocional na presença do desembargador, de outros policiais e de duas psicólogas.
Imagens captadas por câmeras corporais dos agentes presentes no local revelaram surpresa pela presença do desembargador. Um tenente comentou: “O armamento é dele, ele estava no local, ela está com um tiro na cabeça e há alguns detalhes que eu não entendi. Mas eu não ligo para desembargador para vir ao local, certo?”
O delegado Lucas de Souza Lopes, responsável pelo relatório final das investigações, considerou o depoimento do desembargador consistente e coerente com a atitude de alguém movido pela lealdade pessoal ao amigo. Conforme destacou, não houve intenção por parte de Cogan em influenciar a investigação.
Contudo, segundo o delegado, a presença do magistrado poderia ser parte de uma estratégia do tenente-coronel para demonstrar vínculos com autoridades jurídicas, prevendo futuras consequências institucionais, ainda que sem o conhecimento do desembargador.
Geraldo Neto afirmou que na manhã do fato comunicou à esposa sua intenção de se divorciar, momento em que ela teria cometido suicídio. Entretanto, as apurações encontraram elementos que questionam essa versão, apontando o tenente-coronel como principal suspeito do disparo contra Gisele Alves Santana.
O tenente-coronel responde a processos por feminicídio e fraude processual, tanto na Justiça comum quanto na militar, em procedimentos conduzidos pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar. Ele foi preso em 18 de abril e está detido no Presídio Militar Romão Gomes.

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