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Violência atrapalha transporte e dificulta acesso à escola no Rio

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Entre o início de 2023 e meados de 2025, a violência causou interrupções no transporte público que comprometeram as rotas usadas por quase 190 mil estudantes da rede municipal do Rio de Janeiro para ir e voltar da escola.

Essa informação consta do estudo “Percursos interrompidos: impactos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro“, divulgado recentemente pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pelo Instituto Fogo Cruzado e pelo Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).

A pesquisa identificou 2.228 interrupções nos meios de transporte utilizados por esses estudantes durante o período analisado, sendo que quase metade delas (49%) aconteceram em dias de aula e dentro do horário escolar, entre 6h30 e 18h30.

Os principais motivos das interrupções foram barricadas (32,4%), operações policiais (22,7%), manifestações (12,9%), ações criminosas no local (9,6%) e registros de tiros ou tiroteios (7,2%).

Em média, cada interrupção durou sete horas, sendo que 25% passaram de 11 horas. Quando a interrupção ocorreu no horário escolar, a média de duração subiu para oito horas e 13 minutos, com mais da metade ultrapassando quatro horas, prejudicando o andamento das aulas e dificultando o acesso dos estudantes à escola e o retorno para casa.

Em entrevista à Agência Brasil, a chefe do escritório do Unicef no Rio de Janeiro, Flavia Antunes, destacou que o estudo mostra dois tipos de trajetos afetados: o caminho para a escola e o percurso da vida dos estudantes.

“Quando o acesso a um direito fundamental, como a educação, é impedido, isso impacta profundamente o desenvolvimento de uma vida”, afirmou Flavia Antunes.

Ela ressaltou que os episódios durante o horário de entrada e saída das escolas geram medo nas crianças e adolescentes, que passam a temer a repetição desses eventos no dia seguinte, levando à evasão escolar, além de causar problemas de saúde mental e prejudicar o aprendizado.

Desigualdades territoriais

Das 4.008 escolas municipais ativas em 2024, cerca de 95% registraram ao menos uma interrupção no transporte em suas imediações durante o período analisado.

O problema foi mais acentuado em regiões marcadas por desigualdades urbanas e raciais. O bairro da Penha, na zona norte, apresentou o maior número de eventos (633), com transporte interrompido por cerca de 176 dias. Bangu, na zona oeste, e Jacarepaguá, na zona sudoeste, vieram em seguida, com 175 e 161 eventos, respectivamente, acumulando 45 e 128 dias sem transporte.

Para esses três bairros, a instabilidade no transporte já faz parte da rotina.

Considerando apenas o período letivo e horário escolar, a disparidade fica ainda mais evidente. Penha e Jacarepaguá somaram 296 e 108 interrupções, equivalendo a cerca de 88 dias letivos sem transporte. Por outro lado, 70 dos 166 bairros da cidade não tiveram nenhuma interrupção nesse período.

Escolas mais vulneráveis

O relatório avaliou as escolas da rede municipal segundo o risco de serem afetadas pelas interrupções no transporte, com base na frequência e intensidade dos eventos.

Um quarto das matrículas, totalizando 323.359 estudantes, está em escolas com risco moderado, alto ou muito alto.

Dentre as mais de 4 mil escolas, 120 (2,9%) estão em áreas de risco elevado, indicativo de lugares onde a interrupção da mobilidade é frequente. A zona norte concentra 71 dessas escolas (59,2%), seguida pela zona oeste, com 48 unidades (40%). A zona sudoeste ainda não foi oficialmente criada no período estudado.

A coordenadora do Geni/UFF, Carolina Grillo, ressaltou a necessidade de mudar a política de segurança pública, atualmente baseada em operações policiais, descritas por ela como imprevisíveis e pouco eficazes no combate ao controle armado dos territórios.

“Essas operações contribuem para o problema, ao provocar a colocação de barricadas para evitar ações policiais”, explicou Carolina Grillo.

Ela defende foco na proteção das crianças e adolescentes, por exemplo, garantindo a segurança nos arredores das escolas, pois o acesso à educação, saúde e proteção é essencial para a mobilidade social dessas crianças.

“A violência armada na mobilidade urbana compromete as chances dessas crianças de melhorar de vida no futuro”, afirmou.

Consequências amplas

A diretora de Dados e Transparência do Instituto Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto, destacou que os impactos vão além das interrupções imediatas no transporte.

“Estamos falando de uma violência que cria um ambiente de insegurança, funcionando como uma barreira emocional para as crianças chegarem até as escolas”, disse.

Apesar das desigualdades espaciais, quase todas as escolas municipais foram afetadas pelo problema em algum momento, e muitos bairros passam por essa situação em determinados períodos.

“Esse cenário serve como um alerta para os governos municipais e estaduais sobre os padrões claros de desigualdade gerados e mantidos na interseção das políticas de transporte, educação e segurança pública.”

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