Brasil
Local da farsa do suicídio de Herzog revelado por pesquisa
Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriu a cela onde agentes da ditadura militar forjaram o suicídio do jornalista Vladimir Herzog. Herzog foi submetido a tortura e assassinado em 25 de outubro de 1975, no DOI-Codi de São Paulo, órgão repressivo da ditadura militar vinculado ao Exército e ativo entre 1969 e 1983.
Segundo Deborah Neves, doutora em história e pós-doutoranda da Unifesp, identificar o local é importante tanto do ponto de vista histórico quanto jurídico.
“Reconhecer o espaço físico onde a ditadura montou o falso suicídio de Vladimir Herzog permite provar, com evidências científicas, a existência de fraudes cometidas por agentes do Estado.”
“É essencial reconhecer o ambiente onde foram criadas mentiras oficiais que marcaram a história do Brasil e que somente agora, meio século depois, puderam ser reveladas graças à preservação garantida pelo tombamento e aos estudos históricos, arqueológicos e arquitetônicos conduzidos por universidades públicas”, afirmou.
Apesar de passados mais de 50 anos desde seu assassinato, a cela exata onde o falso suicídio foi encenado permanecia desconhecida. Com base em evidências documentais, periciais e arquitetônicas, os pesquisadores identificaram a sala específica dentro do prédio onde a foto do corpo de Vlado pendurado pelo pescoço com um cinto foi registrada.
Na montagem feita pelos agentes da repressão, Herzog, que era mais alto que a janela onde foi pendurado, tinha os pés quase tocando o chão e os joelhos dobrados, além de marcas evidentes da tortura em seu corpo. A imagem divulgada na época expôs as brutalidades cometidas contra opositores do regime militar.
Os estudiosos concluíram que Herzog foi pendurado em uma cela localizada no primeiro andar do prédio dos fundos do complexo que hoje abriga a 36ª Delegacia, na Rua Tutóia, 921. A conservação das características arquitetônicas possibilitou identificar a cela como o cenário da foto divulgada.
Foram encontrados elementos na construção que confirmam o ponto de fixação de um ferrolho, trinco visível em fotos de 1975, ainda presentes na alvenaria da cela. A comparação entre fotografias históricas da cela e o padrão dos tacos no chão comprovaram a correspondência.
Fotografias e análises periciais
Foi feita também a análise dos laudos periciais dos cadáveres de José Ferreira de Almeida, assassinado em agosto de 1975, e de Herzog, morto meses depois, além de depoimentos do fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, que registrou a cena falsa do suicídio.
A dificuldade em confirmar o local era grande porque a descrição da perícia sobre a cela de Herzog não correspondiam com os elementos visuais da fotografia. Por exemplo, o laudo citava janelas do tipo vitrô, mas a imagem mostra blocos de vidro.
Para Deborah Neves, um achado importante para a pesquisa foi o livro A Casa da Vovó: uma biografia do DOI-Codi, do jornalista Marcelo Godoy. Lá, há informações sobre a morte do tenente da Polícia Militar José Ferreira de Almeida, militante do Partido Comunista Brasileiro, preso e torturado pela ditadura militar.
Os militares também tinham alegado suicídio na ocasião, feita na mesma instalação, dois meses antes de Herzog. “A semelhança é impressionante, ele foi fotografado praticamente na mesma posição que Herzog. Marcelo conta que aquela foi a primeira perícia chamada ao DOI-Codi. Eu pensei: se tem perícia, deve ter laudo”, relatou a pesquisadora.
O laudo de Almeida descrevia a cela com bastante detalhamento, mencionando a presença de blocos de vidro nas janelas. Os laudos de ambos os casos indicam que os corpos foram encontrados na ‘cela especial número 1’, informação essencial para estabelecer a localização onde Herzog foi pendurado.
As imagens externas da cela descritas no dossiê referente a Almeida também permitiram reconhecimento da cela pelo confronto com evidências físicas ainda preservadas no prédio atual. “Esta foto externa revelou detalhes que não constavam na descrição da cela de Herzog”, segundo Deborah.
Somente uma sala no edifício mostrou todos os elementos compatíveis para confirmar a identificação. A cela está situada no primeiro andar, no final do corredor. “Porque consideramos aquele local? Na foto do laudo, no canto direito, aparecem três dobradiças. O único lugar no complexo com porta ao lado de armário e dobradiça para fora é exatamente aquele ponto”, explicou.
Essa descoberta foi viabilizada pela cooperação entre as pesquisas de arqueologia forense, coordenadas pela professora de arqueologia histórica da Unifesp, Cláudia Plens, pelas investigações históricas de Deborah Neves e pelos estudos arquitetônicos do pesquisador Alessandro Sbampato, integrante da Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória e Consciência (Rebrapesc).


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