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A força do feminino

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Albert Camus, em Bodas em Tipasa, fala do povo brasileiro como “Um povo criador, ao contrário de um povo civilizado”.

Ao assistir ao documentário Os 3 obás de Xangô: Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi, comecei a compreender nuances que antes não enxergava. Primeiro, a dureza cultural de Pernambuco contrasta com a suavidade da Bahia. Segundo, a mulher exerce papel central no candomblé frente ao machismo presente no Brasil. Por fim, é possível destacar a dimensão cívica da religiosidade afro-brasileira, onde os obás brilham como solucionadores de questões sociais.

Pernambuco se firma em sua dureza, enquanto a Bahia se destaca pela maciez. Na poesia, por exemplo, João Cabral de Melo Neto compara a cana de açúcar a uma faca afiada, tratando o lírico como algo mineral e transcendente. Joaquim Cardozo transforma a rima em defesa e o verso em um combate. Em Sevilha, recebendo Vinicius de Moraes em sua função diplomática, ouviu o poeta perguntar se não seria possível inserir um pouco de amor nos versos, refletindo a diferença de abordagem lírica.

No cinema, Kleber Mendonça Filho se destaca na defesa da resistência política, denunciando torturas e ensinando direitos humanos às novas gerações, enquanto Glauber Rocha combina elementos divinos e diabólicos em sua obra, com uma narrativa emotiva e envolvente capaz de temas complexos e aliar-se a figuras políticas.

A mulher tem papel fundamental no candomblé, como evidenciado no documentário, que revela a religião como espaço de convivência, amizade e superação. Figuras como Mãe Senhora, vista politicamente em Salvador, Mãe Estela de Oxóssi e Mãe Menininha do Gantois mostram força e habilidade na oração. Oxum reina como a estrela mais doce e brilhante.

O poder feminino também se manifesta na culinária, que vai além da comida comum e envolve festa, dança, canto e roda. Pratos como caruru e acarajé produzem energias espirituais e magia, simbolizando a inclusão e a regeneração que o candomblé inspira.

Na literatura, o poder da mulher atravessa o tempo e transforma as práticas sociais. De acordo com Jorge Amado, suas personagens femininas nasceram para combater o machismo que o criticava por escrever sobre marginalizados. Personagens como Teresa Batista, Gabriela, Tieta e Dona Flor ilustram essa luta e potência feminina.

O candomblé possui uma dimensão cívica significativa: é um lugar de encontro e transformação, territorial e espiritual. Na Bahia, enfrentou violências similares às de Pernambuco, porém conquistou espaço cívico, participando da política e agindo ativamente. Como disse Hannah Arendt, política é ação.

Essa cidadania afro-brasileira se expressa nas escolas, reconhecendo a afro-identidade nacional, e nas pesquisas que testemunham ancestralidade e futuro, promovendo coesão social com suavidade, como a imagem que Carmen Miranda projetou – o encanto da baiana que o mundo viu.

O feminino nas coisas tem uma força imensa. Pernambuco é conhecido por sua dureza, sua masculinidade. Para crescer e se equilibrar, deve abraçar também a suavidade feminina representada pelo respeito aos gêneros e às crenças, como o candomblé. Influências culturais afro-brasileiras atraíram pensadores como Jean Paul Sartre, Pablo Neruda e Pierre Verger, ajudando a formar uma obra social e cultural de grande valor. Pernambuco pode se tornar azul, mais afro-cívico e feminino, ampliando seus horizontes com essa visão renovada.

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