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Agricultores protestam com tratores contra acordo UE-Mercosul em Paris
Agricultores franceses chegaram em Paris com seus tratores nesta quinta-feira (8) para manifestar-se contra a iminente assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, apesar das advertências do governo que classificou o ato como ilegal.
O Conselho da União Europeia pode aprovar o tratado, negociado desde 1999 com Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, na sexta-feira, mesmo com a oposição da França, que já anunciou voto negativo. A assinatura do acordo pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está prevista para segunda-feira.
Este acordo criaria a maior área de livre comércio do mundo, mas o setor agrícola europeu teme os impactos da entrada em massa de produtos como carne, arroz, mel e soja oriundos da América do Sul, em troca da exportação de veículos e máquinas da Europa para o Mercosul.
“Não podemos mais pensar que os jovens vão continuar na agricultura, pois isso não será viável”, afirmou Pascal, um pecuarista do centro da França, referindo-se às formas de produção do Mercosul, consideradas menos rígidas e mais competitivas.
A convite da Coordenação Rural, o segundo maior sindicato agrícola conhecido por suas ações intensas, comboios de agricultores entraram em Paris durante a madrugada, dirigindo tratores para protestar diante de monumentos famosos como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo.
O objetivo era dialogar com os presidentes da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, e do Senado, Gérard Larcher, embora as autoridades tenham proibido o tráfego de tratores em várias áreas da capital, incluindo as proximidades do Parlamento.
“Nosso propósito não é causar transtornos”, disse Damien Cornier, agricultor de 49 anos do noroeste francês. “Queremos apenas trabalhar e viver do nosso ofício”, acrescentou o produtor de beterraba-sacarina.
Tanto Braun-Pivet, que enfrentou vaias dos manifestantes, quanto Larcher se reuniram durante a tarde com representantes dos principais sindicatos agrícolas. Parlamentares e até a ministra da Agricultura, Annie Genevard, também mantiveram diálogo com os protestantes.
Ação considerada ilegal
Os agricultores têm realizado manifestações desde o inverno europeu de 2024 (verão no Brasil), aproveitando a diminuição do trabalho no campo durante essa estação, para pedir a flexibilização das normas de produção e simplificação dos processos administrativos.
Este ano, as demandas se intensificam pela forma em que o governo trata a dermatose nodular bovina, uma doença animal. O governo exige o abate completo do rebanho na ocorrência de casos positivos e rejeita a vacinação nacional.
O dia começou com tensão. Agricultores conseguiram passar por barreiras das forças de segurança que tentavam impedi-los de entrar em Paris. A porta-voz do governo, Maud Bregeon, classificou a manifestação como ilegal.
Estima-se que 46 tratores estejam na capital e 63 nos arredores, reunindo cerca de 670 manifestantes, segundo dados do Ministério do Interior. Alguns tratores foram apreendidos na região parisiense e levados para depósito.
Além disso, manifestações similares acontecem em outras regiões, como bloqueios em estradas no sudoeste e leste da França, assim como em depósitos de combustíveis.
No que tange ao Mercosul, o governo enfrenta resistência unificada de diversos setores políticos contrários ao acordo.
Na quinta-feira, o presidente Emmanuel Macron declarou que a França votará contra o tratado, citando uma rejeição política unânime.
“A assinatura do acordo não é o fim. Continuarei lutando para que os compromissos acordados pela Comissão Europeia sejam implementados de forma plena e para proteger nossos agricultores”, afirmou Macron.
Apesar de ter bloqueado a assinatura do tratado em dezembro com o apoio da Itália, acredita-se que Roma aprovasse o acordo após novas concessões feitas pela União Europeia aos agricultores europeus.
A FNSEA, o maior sindicato agrícola da França, anunciou uma manifestação para 20 de janeiro em Estrasburgo, onde está sediado um dos parlamentos europeus, caso o acordo UE-Mercosul seja celebrado.
Na mesma direção da França, a Irlanda comunicou que votará contra o acordo comercial.

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