Economia
Brasileiros criticam gastos do governo, mas apoiam benefícios atrelados ao salário mínimo
A maioria dos brasileiros acredita que a administração do orçamento público enfrenta sérios problemas, considerando que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva gasta além do que seria sustentável. No entanto, muitos defendem a manutenção dos benefícios vinculados ao salário mínimo, assim como os investimentos mínimos em saúde e educação, que acabam pressionando as finanças públicas.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ideia, anteriormente conhecido como Ideia Big Data, e encomendada pelo Movimento Orçamento Bem Gasto, apontou essas percepções entre a população. O levantamento ouviu 1.518 pessoas de todas as regiões do país entre 3 e 8 de dezembro de 2025, com uma margem de erro de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos.
Seis em cada dez brasileiros consideram a gestão do orçamento um problema sério para a sociedade, e 55% acreditam que o governo federal está gastando mais do que deveria. A corrupção foi indicada como o problema mais grave pelo país por 31% dos entrevistados, seguida pela situação econômica – incluindo inflação, desemprego, altas de impostos e pobreza – citada por 17%.
No âmbito das contas públicas, a corrupção lidera as preocupações (39%), seguida por má gestão e desperdício (19%), gastos excessivos (15%), dívida pública alta (8%) e arrecadação insuficiente (4%). A dívida do governo federal atingiu 78,7% do PIB em 2025 e deve alcançar cerca de 84% em 2026, com 58% considerando essa situação como muito grave.
Setenta por cento da população apoia, totalmente ou parcialmente, a criação de uma regra para controlar o crescimento dos gastos públicos. Atualmente, o governo adota um arcabouço fiscal aprovado em 2023, porém muitos economistas acreditam que essa regra será sustentável apenas até 2027, necessitando ajustes futuros mais rigorosos.
Para 78% dos entrevistados, os benefícios pagos pelo governo deveriam ser reajustados anualmente com base no salário mínimo. Entre esses benefícios estão os previdenciários, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e abono salarial, que têm sido as despesas que mais crescem no orçamento público.
Ainda assim, 31% defendem mudanças totais na regra para reorganizar as contas públicas, enquanto outros 31% apoiam mudanças parciais.
Em 2024, o governo apresentou e o Congresso aprovou uma regra que mantém a vinculação ao salário mínimo, mas limita o crescimento real — acima da inflação — a 2,5% ao ano, o mesmo limite definido no arcabouço fiscal.
Os pisos constitucionais de saúde e educação também apresentam situação similar: vinculam os gastos à arrecadação, crescendo acima de outras despesas e restringindo o espaço para outros investimentos.
Entre os entrevistados, 63% defendem um valor mínimo obrigatório para esses investimentos, ao passo que 60% apoiam total ou parcialmente mudanças que dariam mais liberdade ao governo para realocar esses recursos conforme necessário.
Desafios para o equilíbrio fiscal
O economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado do FGV/Ibre, destaca que a pesquisa mostra a importância de o governo explicar claramente para a população as medidas necessárias, especialmente em períodos eleitorais.
Segundo ele, a questão do equilíbrio financeiro pública é complexa. “Quando se pergunta para as pessoas se querem pagar menos impostos, elas respondem que sim, mas ao mesmo tempo querem que o governo gaste mais em saúde e educação. Essa contradição torna impossível equilibrar as contas”, explica.
Em estudo recente, Giambiagi propõe um ajuste no resultado primário — a diferença entre receitas e despesas, sem contar os juros da dívida — de 1,3% do PIB no próximo mandato presidencial (2027-2030) e de 2,5% do PIB até 2035.
O plano inclui crescimento real zero nos gastos públicos no primeiro ano do próximo governo, cortes em despesas consideradas “extrateto”, redução do limite de crescimento do arcabouço fiscal de 2,5% para 2% e eliminação do piso constitucional de 0,6%, levando-o a zero.
Além disso, o economista sugere alterar a regra de vinculação dos gastos obrigatórios em saúde para que acompanhem o limite do arcabouço fiscal e estabilizar as despesas com pessoal e os repasses ao Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), corrigidos apenas pela inflação.
Ele enfatiza que é função do governante esclarecer essas questões para a sociedade, definir prioridades e promover um debate responsável sobre as escolhas a serem feitas.
Emendas parlamentares e supersalários
A pesquisa também revelou que 76% dos brasileiros apoiam total ou parcialmente a redução do valor das emendas parlamentares. Para 2026, o Congresso aprovou R$ 62 bilhões para emendas, mas o presidente Lula vetou e bloqueou parte dessas verbas para fortalecer o caixa de ministérios.
Essas emendas, diretamente controladas por congressistas, correspondem a cerca de 20% das despesas discricionárias do Executivo federal.
Outro gasto criticado é o pagamento de supersalários no funcionalismo público, valores que ultrapassam o teto constitucional. O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o fim desses pagamentos extras, conhecidos como “penduricalhos”, e está discutindo uma transição com o Congresso para implementar a medida.
Mais da metade dos brasileiros (55%) apoiaria totalmente a criação de uma lei para limitar os supersalários, percentual que sobe para 73% quando incluídos aqueles que apoiam parcialmente a ideia.
Giambiagi ressalta que, embora cortar supersalários não resolva o desequilíbrio fiscal, a medida é fundamental para conferir legitimidade às propostas e enfrentar temas difíceis.
Proposta de tarifa zero
Um tema adicional abordado foi a possibilidade de o governo financiar o transporte coletivo gratuito em todo o país. O presidente Lula solicitou ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um estudo sobre essa iniciativa.
Especialistas estimam que o custo ultrapasse R$ 90 bilhões para os cofres públicos. A Secretaria de Política Econômica do ministério manifestou parecer favorável a um projeto que viabiliza o benefício, apesar de não haver posição oficial da pasta.
A proposta de tarifa zero conta com o apoio de 73% dos brasileiros, considerando os que são favoráveis ou muito favoráveis. No entanto, 40% não aceitariam o aumento de impostos para custear o benefício, 24% aceitariam caso haja comprovação de melhorias na cidade, e 17% concordariam desde que o valor adicional seja baixo.

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