Brasil
Camisa com frase polêmica gera revolta ao acusado de estupro ser preso
Na última quarta-feira (4), ao se apresentar na 12ª DP (Copacabana), Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, suspeito de envolvimento em um estupro coletivo contra uma menina de 17 anos, entrou na delegacia usando uma camiseta com a frase em inglês “regret nothing” (que traduzido significa “não me arrependo de nada”). Nas redes sociais, usuários notaram que essa frase estaria ligada a grupos masculinos conhecidos como “machosfera”, que disseminam discursos de ódio e inferiorização das mulheres.
Vitor Hugo, filho de um ex-subsecretário da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Rio, não evitou as câmeras e manteve a cabeça erguida, atitude que chamou atenção antes mesmo da mensagem na camisa ganhar repercussão.
Segundo internautas, a frase é comumente associada ao discurso do coach Andrew Tate, um influenciador abertamente misógino com mais de 11 milhões de seguidores no X (antigo Twitter). Andrew Tate enfrenta acusações de estupro, tráfico humano e exploração sexual e é citado na série da Netflix “Adolescência”, que analisa a influência da machosfera entre jovens e a falta de acompanhamento dos pais na era digital.
Entre os grupos mais conhecidos deste universo estão os Red Pill, que promovem ideologias machistas sob a ideia de “acordar para a realidade”, conceito inspirado no filme Matrix (1999), onde a pílula vermelha revela a verdade e a azul mantém a ilusão.
Também fazem parte desse conjunto os incels — homens que se dizem incapazes de encontrar parceiras — e o movimento Men Going Their Own Way (MGTOW), que defende evitar relações com mulheres.
Esses grupos propagam discursos violentos, reforçando uma ordem de gênero rígida e desconsiderando a autonomia feminina, muitas vezes objetificando as mulheres e lucrando com o discurso de ódio, segundo a pesquisadora Isadora Vianna do Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero (Nuderg), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Isadora Vianna explica que os algoritmos das redes sociais impulsionam esse tipo de conteúdo, acelerando sua circulação e dando voz a frustrações comuns entre jovens, que buscam explicações simplistas para seus problemas pessoais.
Para ela, o crescimento desses grupos pode ser uma reação às conquistas do movimento feminista e ao debate público sobre violência de gênero. A internet reflete e molda comportamentos, por isso o conteúdo que circula nas redes deve ser tratado com rigor:
“Esses discursos influenciam práticas e atitudes”, destaca.
A antropóloga, historiadora e membro da Academia Brasileira de Letras Lilia Moritz Schwarcz comentou em seu Instagram sobre a postura de Vitor Hugo e o significado da frase:
“De olho na foto. Olhar firme, corpo ereto: esta foi a postura de Vitor Hugo Simonin ao se apresentar na delegacia. O que significa não se arrepender? É um código daquele universo: ser viril é nunca admitir erros…”
Ela também ressaltou que o feminicídio tem aumentado no Brasil, influenciado pelas redes sociais que divulgam ideologias de ódio contra as mulheres. No ano de 2025, houve o maior registro de crimes sexuais em uma década, com muitos jovens suspeitos e a maioria das vítimas sendo meninas.
Segundo Lilia, é necessário arrependimento, mas faltam políticas públicas de educação e proteção.
Quem é Andrew Tate
Andrew Tate foi quatro vezes campeão mundial de kickboxing e ganhou notoriedade em 2016 ao participar do reality show britânico “Big Brother”, de onde foi expulso após um vídeo mostrando agressão a uma mulher ser divulgado. Posteriormente, ele investiu nas redes sociais, onde exibiu um estilo de vida luxuoso, incluindo carros esportivos, jatos e iates.
Conhecido por seus conteúdos misóginos, Tate é mencionado na minissérie “Adolescência”, da Netflix, que trata do impacto da machosfera entre jovens.
Com mais de 11 milhões de seguidores no X, Andrew Tate se tornou uma influência importante nesse meio digital, difundindo uma visão agressiva e hierárquica da masculinidade.
Para a pesquisadora Isadora Vianna, Tate representa um “ícone de masculinidade” contemporânea, associado ao sucesso econômico. Ele explora não só o discurso misógino, mas também as frustrações ligadas à vulnerabilidade financeira:
“Além de propagar misoginia, ele se apresenta e é visto como símbolo de sucesso: um homem rico, bem-sucedido, rodeado por mulheres. Isso toca um ponto emocional importante nas frustrações econômicas”, comenta.
Tate enfrenta acusações na Romênia por estupro, tráfico humano e exploração sexual. Ele e seu irmão, Tristan Tate, são suspeitos de criar uma organização criminosa para explorar sexualmente vítimas na Romênia e no Reino Unido desde 2021.
Ele foi banido de plataformas como Instagram e TikTok por violar regras contra discurso de ódio, mas mantém uma grande audiência no X.

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