Economia
Canetas emagrecedoras transformam hábitos alimentares em bares e restaurantes
No restaurante Estela Passoni, localizado em São Paulo e conhecido por sua proposta de alimentação saudável, uma nova categoria de clientes tem surgido gradativamente. Diferente daqueles que buscam degustar a variedade do cardápio, como o polpetone de frango grelhado com mix de folhas verdes, cenoura julienne, palmito e granola salgada, ou a galinhada com arroz integral, alguns clientes parecem satisfeitos apenas com uma porção de proteína.
— Ontem vieram três pessoas e pediram somente tilápia grelhada — relata Mariana Passoni Yoshimoto, sócia do restaurante. — Algumas pessoas escolhem dividir uma porção de carboidrato enquanto comem sozinhas a proteína.
Esse comportamento tem relação com o aumento do uso de medicamentos para emagrecimento, como a semaglutida e a tirzepatida, presentes em tratamentos conhecidos como canetas emagrecedoras. Em bares e restaurantes pelo Brasil, percebe-se uma movimentação discreta onde pratos volumosos estão sendo substituídos por opções menores. Além disso, há relatos de obsessão por doces e a preferência por dividir porções.
Alguns estabelecimentos já se anteciparam a essa tendência, adaptando receitas para atender a esses apetites mais controlados. No restaurante Nou, em Pinheiros, o chef Amilcar Azevedo sentiu diretamente os efeitos dessas medicações e criou versões reduzidas dos pratos, como o risoto de limão siciliano com filé mignon, que pode ser solicitado em tamanho 30% menor.
As vendas das porções menores representam 15% do faturamento atual e a expectativa é de crescimento. A mudança no cardápio começou a ser implementada há mais de um ano.
— Essa transformação apareceu com base na observação do mercado e das experiências pessoais — comenta Amilcar. — Notamos mais pessoas querendo dividir pratos, ou com vergonha de pedir porções menores, o que fazia sobrar comida. Quando questionados, respondiam que comem pouco.
Os garçons foram instruídos a oferecer tanto porção inteira quanto reduzida, respeitando as características dos alimentos, pois nem todos permitem redução, como a coxa de frango.
Outra casa que intensificou essa adaptação foi o Zen Cozinha Oriental, com unidades no Rio de Janeiro. O restaurante criou o “Rodízio Mounjaro”, com porções variadas de 10 a 40 peças, ideal para quem deseja controlar o apetite mas manter a variedade típica do rodízio.
Lucas Ribeiro, um dos sócios, explica que esse rodízio adaptado ajudou a reativar clientes que haviam diminuído as visitas, além de impulsionar as vendas durante o almoço.
No restaurante Quattrinho, em São Paulo, observa-se que clientes em uso das canetas emagrecedoras estão mais tranquilos para consumir massas, pois sabem quando parar graças ao efeito das medicações.
Mary Nigri, sócia do Quattrinho, comenta que alguns clientes retomaram o hábito de comer pratos como a lasanha, confiando em poder aproveitar as sobras.
A endocrinologista Tarissa Petry, do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Oswaldo Cruz, explica que essas medicações atuam no sistema nervoso central, influenciando o circuito da fome e saciedade, retardando a sensação de fome e alterando também a fome emocional, o que justifica essas mudanças no comportamento alimentar.
Embora os donos dos restaurantes percebam essas mudanças, eles ressaltam que não é possível afirmar com certeza que são causadas pelas canetas emagrecedoras, já que não é comum os clientes revelarem esse uso. Todavia, aumentou a frequência de pedidos para levar sobras para casa e de compartilhar pratos.
Em estabelecimentos como o Palermo, também em São Paulo, a preferência por saladas em detrimento de pratos mais calóricos tem aumentado. O sócio Caio Tucunduva comenta que os pratos continuam disponíveis em tamanhos variados para atender diferentes apetites.
Para João Paulo Gentille, do Praça São Lourenço, essa transformação representa uma oportunidade para a gastronomia, que pode valorizar mais a qualidade do que a quantidade, reduzindo o protagonismo das porções enormes.
— Alguns restaurantes não gostam de dividir pratos, mas aqui somos bastante flexíveis e percebemos comportamentos diferentes, como pessoas comendo menos à noite — afirma ele.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) prepara uma pesquisa para avaliar o impacto dessas mudanças e entender os novos hábitos alimentares que surgem, incluindo o efeito nas diferentes classes sociais.
Paulo Solmucci Júnior, presidente da Abrasel, destaca que tornou-se comum observar casais dividindo pratos e que o ticket médio permanece estável, pois as pessoas compensam pedindo sobremesas ou entradas.
Essa investigação pretende mapear a velocidade e abrangência dessas transformações no setor gastronômico brasileiro nos próximos meses.

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