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Coach ‘Red Pill’ torna frase famosa usada por acusado em caso de estupro coletivo
Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, se entregou à polícia na última quarta-feira (4) usando uma camiseta com a frase em inglês “regret nothing” (“não me arrependo de nada”, traduzido livremente para o português).
A expressão, popularizada pelo coach Andrew Tate, uma das figuras centrais do grupo Red Pill, conhecido por suas ideias misóginas, está ligada a comunidades masculinas conhecidas como “machosfera”, que promovem discursos de ódio e a submissão das mulheres.
Andrew Tate, um quatro vezes campeão mundial de kickboxing, ganhou notoriedade em 2016 ao participar do reality show britânico “Big Brother”, de onde foi expulso após a divulgação de um vídeo em que agredia uma mulher. Depois disso, ele passou a investir nas redes sociais, mostrando um estilo de vida luxuoso, com carros esportivos, jatos e iates.
O coach é conhecido por espalhar ideias misóginas nas redes sociais. Atualmente, ele mantém uma conta no X (antigo Twitter) com mais de 11 milhões de seguidores, mas seus perfis no Instagram e TikTok foram banidos por violarem regras contra discurso de ódio.
Tate é acusado de estupro, tráfico humano e exploração sexual. De acordo com a Justiça, ele e seu irmão, Tristan Tate, teriam montado em 2021 uma organização criminosa que atuava na Romênia e Reino Unido para explorar sexualmente vítimas. Representantes dele afirmam que os irmãos negam todas as acusações e consideram o processo um abuso do sistema legal.
Andrew Tate também é citado na série “Adolescência”, da Netflix, que discute a influência da machosfera entre os jovens e a falta de cuidado dos pais na era digital.
Para Isadora Vianna, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Tate é visto pelos seguidores como um símbolo da masculinidade atual, ligado à ideia de sucesso. Ela destaca que ele usa não só discurso misógino, mas também toca nas frustrações relacionadas à insegurança econômica.
“Além de difundir ideias misóginas, ele se apresenta e é visto como um símbolo de sucesso financeiro: um homem rico, bem-sucedido, cercado por mulheres. É o que muitos desejam ser. Por isso, atingir esse aspecto emocional das dificuldades econômicas é fundamental para esse tipo de conteúdo”, explica.
O que é a ‘Machosfera’
Os grupos mais conhecidos dentro desse movimento são os Red Pill, que promovem ideias machistas sob a justificativa de “acordar para a realidade”, referência ao filme Matrix (1999), onde a pílula vermelha revela a verdade e a azul mantém a ilusão. Também fazem parte os incels — homens que dizem não conseguir arrumar parceiras — e o movimento Men Going Their Own Way (MGTOW), que aconselha os homens a evitarem relacionamentos com mulheres.
“Eles espalham ideias agressivas, reforçando uma divisão rígida de papéis entre homens e mulheres e desconsiderando a autonomia feminina. Também objetificam as mulheres, vinculando seu valor à aparência. Esses grupos lucram com a monetização do discurso de ódio”, comenta Isadora Vianna.
A pesquisadora diz que os algoritmos das redes sociais ajudam a amplificar e acelerar a difusão dessas ideias, que também ressoam com as dificuldades enfrentadas por jovens.
“Eles oferecem respostas simples e rápidas para as frustrações dos jovens que não têm sucesso nas relações, estudos ou carreira, explicando por que eles são rejeitados”, destaca.
Para Vianna, o crescimento desses grupos pode ser uma reação às conquistas do feminismo e ao debate público sobre violência de gênero.
“A internet reflete a sociedade e também influencia comportamentos. Hoje, a maioria das informações e interações acontecem online. Por isso, o conteúdo disseminado precisa ser levado a sério, pois esses discursos influenciam práticas e atitudes”, conclui.

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