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Como crianças com amputação conseguem próteses em São Paulo
Os diversos casos de amputações de membros ou partes do corpo devido a acidentes, crimes e enfermidades frequentes no Brasil levantam dúvidas sobre o acesso das vítimas ao sistema público de saúde para obter próteses, especialmente para pessoas que não podem pagar por equipamentos no mercado privado.
Devido à complexidade do processo, garantir uma prótese que substitua uma perna, braço ou pé é algo demorado, porém essencial para restaurar funções corporais como caminhar ou segurar objetos, além de promover autonomia e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Em São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde ofereceu 639 próteses no ano de 2025. O ponto inicial para o atendimento na rede pública são as Unidades Básicas de Saúde (UBS), que encaminham os pacientes aos Centros Especializados em Reabilitação (CER) existentes na cidade.
Um importante aliado no processo é a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), que possui uma oficina ortopédica bem equipada para produzir próteses para o Sistema Único de Saúde (SUS). É nesta estrutura que a prótese da perna esquerda da menina Gabrielly, atualmente com 11 anos, tem sido confeccionada desde que ela tinha 1 ano.
A espera de uma nova prótese
Diagnosticada com diabetes e enfrentando uma gravidez de alto risco, Meire Aparecida Valentim Ramalho descobriu no quarto mês da gestação que sua filha, Gabrielly, tinha uma má formação. O médico sugeriu que a melhor opção seria amputar a perna da criança e providenciar uma prótese, evitando assim múltiplas cirurgias que poderiam não ter sucesso.
Gabrielly recebeu o diagnóstico de hemimelia tibial, que caracteriza a ausência da tíbia da perna esquerda, e iniciou o acompanhamento na AACD em 2016. Com pouco mais de um ano, teve a perna amputada e, logo após a cicatrização, o SUS forneceu a primeira prótese.
Hoje, ela está prestes a receber a 11ª prótese, todas entregues pelo SUS por meio da AACD, acompanhando seu crescimento. Durante o período de espera por um novo dispositivo, Gabrielly utiliza uma cadeira de rodas também fornecida pelo sistema público.
Dança e superação
Na AACD, além das sessões de fisioterapia e suporte psicológico, a dança é a atividade favorita de Gabrielly. Ela explica que a dança ajuda a explorar movimentos do corpo e criar conexões com outras pessoas, sendo uma forma de expressão e socialização muito importante para ela. A menina também nutre o sonho de se tornar pediatra.
Embora o atendimento público não seja perfeito, principalmente devido às filas de espera — que podem chegar a dois anos para cadeiras de rodas e três meses para novas próteses —, mãe e filha destacam a importância do SUS. Meire ressalta sua gratidão pela assistência, lembrando que próteses no mercado privado podem custar até R$ 30 mil e que o sistema público foi fundamental para que sua filha tenha uma vida tranquila. “Nada é impossível”, afirma com esperança.
Rede pública de reabilitação em São Paulo
Em âmbito estadual, São Paulo conta com a Rede de Reabilitação Lucy Montoro, gerida pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FM/USP). Após atendimento inicial nas UBS e CERs, os pacientes são avaliados por uma equipe multiprofissional, incluindo fisiatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e enfermeiros, que elaboram um plano terapêutico individualizado.
Se as condições clínicas permitirem o uso de próteses, o paciente recebe uma prescrição médica para o modelo adequado. Embora algumas unidades façam ajustes nos equipamentos, a fabricação não é realizada nesses locais.
Na capital, o processo inclui moldagem, testes e entrega do equipamento em parceria com empresas contratadas, responsáveis pela construção dos dispositivos. O acompanhamento posterior no CER é fundamental para o treinamento no uso, ajustes, monitoramento e reavaliações contínuas.
Oficina de próteses da AACD
A Oficina de Próteses da AACD, situada na Avenida Professor Ascendino Reis, no bairro do Ibirapuera, zona sul de São Paulo, produz uma variedade de produtos, como órteses, próteses, coletes, capacetes, palmilhas e adaptações para cadeiras de rodas feitas sob medida.
Este espaço, que lembra uma oficina mecânica pelo cheiro de óleo e som de máquinas, é dividido em setores específicos: moldagem e fabricação de órteses, confecção de cadeiras de rodas, sala de impressoras 3D, e setores dedicados à criação de próteses transtibiais (amputação abaixo do joelho), transfemorais (amputação na coxa) e até de desarticulação de quadril (amputação na parte superior do quadril).
No setor de usinagem, computadores com softwares especializados convertem imagens digitais em comandos para máquinas, permitindo a produção precisa de órteses e as espumas usadas nas adaptações das cadeiras de rodas.
O local ainda conta com estações para acabamento e testes dos aparelhos. Nenhum produto é entregue aos pacientes sem antes passar por experimentação e, se necessário, receber novas adaptações, garantindo que cada equipamento esteja adequado às necessidades individuais.

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