Mundo
Crianças guatemaltecas fugindo do perigo nos EUA temem deportação
Aos 15 anos, I.B. deixou a pobreza e o abuso de seu pai na Guatemala para buscar uma vida melhor nos Estados Unidos. Sozinha, ela entrou no país através do México, sem um adulto ou status legal, como muitas outras crianças que vivem em abrigos e enfrentam a ameaça de deportação sob a administração de Donald Trump.
Entre outubro de 2024 e agosto de 2025, foram registrados 28.687 casos de menores imigrantes desacompanhados, número 70% inferior ao anterior. Muitos desses jovens são guatemaltecos, provenientes de comunidades indígenas vulneráveis ameaçadas por gangues.
I.B., pertencente à etnia indígena q’eqchi’, chegou em setembro de 2024 e foi acolhida por uma família no estado de Connecticut, após ser aceita pelo Departamento de Assentamento de Refugiados dos EUA.
Ela relatou: “Deixei a Guatemala por causa dos sofrimentos que enfrentei lá. Parei de estudar para trabalhar e ajudar minha família; em momentos difíceis, chegávamos a buscar comida no lixo. Meu pai me abusou.”
Em agosto, agentes de imigração perguntaram se alguém na Guatemala poderia recebê-la. I.B. respondeu que tinha muito medo de retornar, mas essa preocupação não foi considerada.
I.B. é assistida pela ONG Centro Nacional de Leis Migratórias, que em agosto conseguiu suspender uma tentativa de deportação em massa de 76 menores guatemaltecos. Um desses jovens, F.O.Y.P., de 17 anos, contou que foi levado para um avião com destino à Guatemala contra sua vontade, tendo passado por grande sofrimento antes da operação ser temporariamente parada pela justiça.
Advogados defenderam que devolver essas crianças sem decisão judicial é ilegal, e um juiz federal em Washington DC suspendeu temporariamente as remoções. Até o momento, o governo Trump não recorreu da decisão.
Mary McCord, representante do Instituto para Defesa Constitucional, classificou esta paralisação como uma vitória não só para as crianças guatemaltecas, mas para todos os menores desacompanhados nos Estados Unidos.
Os EUA afirmam que 327 jovens guatemaltecos têm direito ao retorno voluntário baseado em um acordo bilateral, enquanto a Guatemala estima que são mais de 600. As autoridades americanas reivindicam que essas crianças devem estar com suas famílias, mas um juiz apontou que não há evidências de que os pais dessas crianças solicitaram o retorno, nem que foram localizados pela Guatemala.
Medo de Retornar
I.B. declarou: “Minha família de acolhimento me trata bem e me apoia. Sinto-me segura e não quero voltar para a Guatemala.”
O presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, explicou que a decisão de repatriar esses menores visa evitar que, ao atingirem a maioridade nos EUA, sejam levados para centros de detenção da Polícia de Imigração e Alfândega.
Para ele, todos os jovens desacompanhados que estiverem aptos a retornar, seja voluntariamente ou por ordem judicial, serão recebidos no país.
Z.I.M.T.T., adolescente da etnia k’iche’, contou que sua mãe deseja sua segurança, mas teme pela sua vida se ela for forçada a voltar. Mesmo expressando isso ao juiz, ela enfrentou um risco real de deportação.
M.A.L.R., jovem da etnia mam, relatou o medo e o sofrimento que sentiu ao ser retirada da família que a acolhia para ser levada ao aeroporto, chegando a ficar doente pela ansiedade. Ela fugiu da Guatemala aos 15 anos após ser ameaçada de morte por um homem que ela rejeitou.
A mãe de M.A.L.R., B.M.R.P., reforça o temor pela segurança da filha e pede que ela não seja obrigada a retornar para seu país de origem, onde sua vida estaria em perigo.

Você precisa estar logado para postar um comentário Login