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Ex-delegado morto questionou prefeito sobre fraude em licitação, revela servidora
Em depoimento à Polícia Civil, uma servidora da Prefeitura de Praia Grande afirmou que, poucos dias antes de ser assassinado, o ex-delegado geral Ruy Ferraz Fontes, que também era secretário de Administração do município, ficou visivelmente indignado após uma conversa com o prefeito Alberto Mourão (MDB). A pauta do diálogo foi uma licitação suspeita, que aparentemente favoreceu a empresa de monitoramento Peltier.
Durante o pregão eletrônico, as três empresas com as melhores propostas foram desqualificadas por motivos técnicos, o que garantiu a vitória da Peltier, que havia ficado em quarto lugar, com um contrato no valor de R$ 14 milhões. Ao ser informado por Ruy Ferraz, Alberto Mourão determinou que o resultado da licitação fosse mantido.
Ruy Ferraz Fontes estava elaborando um dossiê detalhado que apontava a participação de funcionários da prefeitura em um esquema de fraudes envolvendo licitações, mencionando pelo menos 11 processos em benefício da Peltier. Ele relatou que alguns servidores estariam vivendo em condições luxuosas, incompatíveis com seus salários.
Três servidores mencionados no rascunho do dossiê foram alvo de uma operação em 3 de outubro. Entre eles, está Sandro Rogério Pardini, subsecretário de Gestão e Tecnologia, um dos responsáveis pela licitação. Investigadores consideraram a possibilidade de que a morte de Ruy Ferraz pudesse estar relacionada à disputa pelo contrato.
Entretanto, o Ministério Público de São Paulo (MPSP), ao apresentar denúncia contra oito suspeitos pelo homicídio, afirmou que o crime foi cometido a mando do Primeiro Comando da Capital (PCC) e não mencionou as irregularidades na licitação. Segundo os promotores, a motivação estaria ligada à atuação policial do ex-delegado.
Após a desclassificação das três primeiras colocadas na licitação, representantes das empresas questionaram o resultado em reunião realizada no gabinete de Ruy Ferraz. O encontro contou com a presença de Fábio Glerean, genro do prefeito Alberto Mourão, além de servidores como Sérgio Pardini.
Segundo depoimento prestado em 28 de novembro por Ana Paula Lisboa, servidora da prefeitura há mais de 38 anos, o ex-delegado ficou extremamente irritado e decidiu tratar o assunto diretamente com o prefeito, que optou por manter o resultado do pregão, favorecendo a Peltier.
As desclassificações ocorreram por motivos técnicos variados: a empresa Avenue, primeira colocada, teve sua documentação rejeitada porque o modelo de câmera ofertada não possuía lente verifocal; a Alerta, segunda colocada, foi desclassificada devido ao uso de material inadequado (aço carbono em vez de inox) nas câmeras; e a New Line, terceira, apresentou documentação incompleta. Essas decisões culminaram na vitória da Peltier.
Em entrevista, promotores responsáveis pela denúncia descartaram a hipótese de que o assassinato estivesse ligado a fraudes em licitações, ressaltando que o planejamento do crime teria começado antes da descoberta das irregularidades pelo ex-delegado. A ordem para o homicídio teria partido do PCC, com a execução realizada por membros da facção.
A denúncia aponta suspeitos que teriam colaborado de diversas formas, como ceder imóveis usados na operação criminosa ou deixar digitais nos veículos utilizados. Dentre esses, Felipe Avelino da Silva (Masquerano) e Flávio Henrique Ferreira de Souza foram identificados por digitais no Jeep Renegade usado no crime, enquanto Umberto Alberto Gomes, suspeito de ser um dos atiradores, morreu após confronto com as polícias de São Paulo e Paraná.
Luiz Antônio Rodrigues de Miranda (Gão) teria sido o motorista do carro usado na execução e responsável por transportar o armamento após o crime. Outros acusados, como Paulo Henrique Caetano de Sales (PH), William Silva Marques e Cristiano Alves da Silva, teriam oferecido imóveis para o uso dos criminosos e apresentavam características semelhantes aos suspeitos de participação direta na execução.


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