Conecte Conosco

Brasil

Fim da Escala 6 x 1 pode custar quase 30 mil empregos no Agro

Publicado

em

Grande aposta eleitoral de Lula atinge em cheio o setor

Tábita Marinho

À medida que o debate sobre o fim da escala 6×1 ganha força no Congresso Nacional, cresce também a preocupação dos setores produtivos em torno dos impactos que a mudança pode acarretar para a economia brasileira.  

Grande aposta do governo Lula para as eleições de 2026, a nova escala, se aprovada, poderá custar 638,7 mil empregos formais no Brasil, conforme aponta um estudo técnico feito a partir da transposição metodológica que aplica ao Brasil os coeficientes estimados por pesquisadores que analisaram os efeitos da redução da jornada semanal de 44 para 40 horas em Portugal — exatamente o tipo de mudança em discussão no legislativo brasileiro.  

Apresentado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), o estudo afirma que o setor agropecuário figura entre os mais expostos à mudança: a estimativa aponta para uma perda de aproximadamente 28 mil empregos formais e uma queda de 1,3% na produtividade por trabalhador no campo.        

Hora de trabalho mais cara  

A lógica econômica por trás dos impactos é direta. Se a jornada máxima semanal cai, mas os salários mensais se mantêm — como preveem as propostas em discussão —, o custo do trabalho por hora sobe automaticamente. No caso do país europeu, esse aumento foi estimado em 9,2% no salário-hora, o que levou empresas a reduzirem emprego em cerca de 1,7% e produção em aproximadamente 3,2%.  

Em contrapartida, a produtividade por hora cresceu cerca de 7,9%, reflexo de reorganização de turnos, menor fadiga e maior intensidade do trabalho nas horas restantes — ganho real, mas insuficiente para compensar integralmente o aumento de custos.   “Para uma parte das empresas, o choque pode ser absorvido por reorganização interna e mudanças tecnológicas. Para outras, pode virar compressão de margens, aumento de preços ao consumidor ou redução de escala”, destaca a análise.  

O campo na linha de frente  

O cálculo considera o chamado “percentual de horas tratadas” — isto é, a fração das horas contratuais dos trabalhadores formais que ultrapassa o limite de 40 horas semanais e, portanto, seria diretamente afetada pela mudança legal.   No setor agropecuário, esse índice chega a 9%, empatado com o comércio no topo do ranking setorial. 

Por que o Agro sente mais esses impactos?  

A explicação para a alta exposição do setor está na natureza das atividades rurais. Colheitas, plantios, manejo de animais e operações sazonais frequentemente demandam jornadas estendidas, organizadas justamente em escalas como a 6×1.

Além disso, grande parte dos contratos formais no campo opera próxima ou exatamente no teto constitucional atual de 44 horas semanais — o que significa que uma parcela proporcionalmente maior das horas contratadas está “acima da linha” dos 40 que seriam o novo limite.  

Margens apertadas para competitividade internacional  

Entidades destacam que Governo e Congresso não ouviram o setor produtivo e que não houve uma avaliação macroeconômica. O setor reforça que o Agro brasileiro já enfrenta um cenário de custos de insumos, logística e transporte elevados, além da pressão competitiva de grandes exportadores globais.    

Medida eleitoreira

Luiz Antonio Pagot, economista, ex-diretor Geral do DNIT e consultor de empresas e entidades ligadas ao Agro avalia que a medida é eleitoreira e que o aumento de custos para os empregadores pode ser de até 18%, dependendo da atividade. “O objetivo não é contribuir com a população, é clientelismo político e cooptação pura”, disse.

Ele afirma, ainda: “se aprovada, a proposta irá agravar ainda mais o quadro de falta crônica de pessoal em todos os setores: comércio, indústria e produção agrícola.”  

Copyright © 2024 - Todos os Direitos Reservados