Brasil
Ibovespa cai 3,28% por tensão geopolítica
O Ibovespa sofreu sua maior queda desde a famosa sessão conhecida como “Flávio Day” – registrada em 5 de dezembro do ano passado, quando despencou 4,31% após o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. Nesta terça-feira, 3, o índice não resistiu ao aumento da tensão geopolítica no Oriente Médio.
Durante um pregão bastante volátil, o Ibovespa oscilou cerca de 9 mil pontos, variando entre a máxima de 189.602,38 e a mínima de 180.518,33, encerrando o dia em queda de 3,28%, aos 183.104,87 pontos. O volume financeiro foi de R$ 46,8 bilhões, algo incomum para dias sem vencimento de opções, mas já visto em momentos de maior interesse estrangeiro por ativos brasileiros no início do ano. Na semana e no mês, o índice acumula recuo de 3,01%, limitando sua valorização anual a 13,64%.
Entre as maiores perdas, destacaram-se as ações do Pão de Açúcar (-17,78%), seguidas por Yduqs (-6,99%), Assaí (-6,49%) e CSN (-6,06%). Apenas duas ações tiveram desempenho positivo: Raízen (+6,15%) e Braskem (+3,24%). As ações da Petrobras perderam força no fim do dia, fechando em baixa de 0,74% (ON) e 0,44% (PN), após terem apresentado ganhos superiores a 4% na véspera, contribuindo para o leve avanço do Ibovespa naquele dia.
Após figurarem como destaques em um dia de alta para o índice, na terça as ações da estatal não conseguiram acompanhar o desempenho do petróleo, que inicialmente subiu mais de 6%, com contratos futuros de Brent e WTI aumentando cerca de 4,7% ao final das negociações em Londres e Nova York.
Durante a tarde, a alta do petróleo moderou-se após notícias da Reuters indicarem que as secretarias do Tesouro e de Energia dos Estados Unidos estariam preparando uma resposta para o presidente Donald Trump, visando mitigar o aumento dos custos de energia causados pelo conflito no Oriente Médio. O governo norte-americano hesita em liberar a Reserva Estratégica de Petróleo, mas pode estar sinalizando essa medida se os preços continuarem subindo.
No mesmo dia, o presidente Trump afirmou que a marinha dos EUA poderá escoltar navios-tanques pelo Estreito de Ormuz para garantir a segurança das rotas, ameaçadas pela Guarda Revolucionária iraniana, principal poder do regime persa.
Segundo Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, “ainda é cedo para falar em choque de oferta, pois os problemas no mercado petroleiro precisariam se estender por cerca de um mês, impactando também a inflação global. Por enquanto, trata-se de uma correção temporária, enquanto aguardamos maiores desdobramentos e clareza sobre a duração do conflito”.
O impacto da aversão ao risco afetou principalmente as ações de primeira linha, que haviam registrado alta nos meses anteriores devido ao apetite externo por ativos brasileiros. O desempenho do Santander Brasil exemplifica esse movimento, com as Units caindo 2,45% e acumulando baixa de 2,33% em 2026, sendo o primeiro grande banco a registrar queda no ano. Nos dois primeiros dias de março, o setor financeiro acumula perdas significativas: Itaú PN caiu 3,35% na sessão e 5,09% no acumulado, enquanto BTG Units recuou 5,86% na sessão e 6,12% no total.
A Vale ON também foi impactada, caindo 4,17% após mínima oscilação no dia anterior. Nos Estados Unidos, os principais índices fecharam em queda: Dow Jones -0,83%, S&P 500 -0,94% e Nasdaq -1,02%.
Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, explica: “O que observamos é a clássica reação do mercado a conflitos bélicos: choque inicial, aversão ao risco, alta do petróleo e fortalecimento do dólar. Foi isso que ocorreu no início da guerra Rússia-Ucrânia. Naquele momento, o temor era uma desorganização estrutural do mercado global de energia, mas com o tempo, apesar do conflito, os preços se estabilizaram”. Ele destaca ainda que, enquanto na segunda-feira o dólar subiu 0,62% (valendo cerca de R$ 5,16), na terça foi a R$ 5,26, um avanço de 1,92% na sessão.
A duração do conflito tem limites estratégicos, segundo Corano: “Os Estados Unidos não têm interesse em manter o petróleo em alta por muito tempo, pois isso pressiona a inflação e prejudica a economia doméstica. A China também se posiciona para evitar o fechamento do Estreito de Ormuz, sendo dependente do petróleo iraniano e interessada na estabilidade das rotas de energia”.
Jucelia Lisboa, sócia e economista da Siegen Consultoria, observa que a valorização do petróleo aumenta os temores de inflação global, levando investidores a ajustar expectativas de cortes de juros e adotar maior cautela. Ela destaca que, em momentos assim, o mercado reduz exposição a ativos mais arriscados, como ações e moedas de emergentes, e busca proteção em ativos seguros, como o dólar.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, acrescenta que a curva de juros já vinha pressionada, especialmente após o IPCA-15 de fevereiro acima do esperado, e agora enfrenta risco adicional com a tensão no exterior. A incerteza sobre a retaliação iraniana e interrupção do fluxo no Estreito de Ormuz aumentam o nervosismo no mercado.
Eduardo Amorim, especialista da Manchester Investimentos, destaca que o movimento global de “flight to quality” beneficia o dólar como ativo refúgio, limitando a valorização do real. Ele afirma que a escalada do conflito eleva o prêmio de risco sobre moedas emergentes e provoca saída de recursos, fazendo o dólar voltar a negociar acima de R$ 5,20 e estabelecendo um novo patamar condicionado à duração da incerteza no cenário global.

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