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Matar uma mulher negra é mais fácil

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A ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia foi a terceira a votar, nesta quarta-feira, no julgamento dos cinco acusados de planejar o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Logo no início de sua fala, afirmou que o Brasil ainda vive em um “canto sem encanto”.

Quantas mulheres como Marielle o Brasil vai permitir que sejam mortas?

Cármen Lúcia iniciou seu voto saudando quem acompanha a sessão e afirmou que o Brasil segue sendo um lugar sem encanto. Ela fez uma comparação entre o debate do chamado gabinete do ódio do ano passado e o atual julgamento do chamado escritório do crime.

— Do gabinete do ódio, que discutimos no ano passado, ao escritório do crime, e até crimes informais e espalhados. Eu me pergunto: quantas mulheres como a Marielle o Brasil aceitará ver assassinadas até que se restabeleça a verdadeira ideia de Justiça neste país cheio de injustiças? Quantos Andersons ainda iremos ver sofrer? Quantas Luyaras (filha de Marielle) e Arthurs (filho de Anderson) ficarão órfãos para que o Brasil entenda que isso não pode continuar e que o Estado Democrático de Direito não é apenas palavra vazia? — questionou.

O desafio do machismo e racismo

Durante o voto, Cármen Lúcia abordou o machismo e o racismo explícitos na morte da vereadora. Segundo ela, as mulheres são mais vistas como símbolos do que como titulares de direitos, tornando-se alvos mais vulneráveis do que os homens.

— Marielle era uma mulher negra que começava a se destacar. Em uma de suas falas para TV aberta, dizia: “Sou uma mulher negra e não é por ser mulher que vão calar minha voz”. Há um lado ainda mais cruel: nós, mulheres, somos mais símbolos do que sujeitos de direito. É aquela que está ao lado da magrinha, daquela de cabelo branco. Somos seres humanos parecidos, mas sem reconhecimento completo. Matar uma de nós é muito mais fácil — ressaltou.

Em seguida, dirigiu-se à mãe da vereadora:

— Dona Marinete, sua filha não é só sua. Falo como mãe. É muito mais fácil me matar do que matar os outros três aqui (referindo-se aos demais ministros), porque se pensa: “não vai acontecer nada”. Mas aconteceu — afirmou.

Feudalismo criminoso

Cármen Lúcia afirmou que o poder das milícias no Brasil representa um ataque direto à soberania do país, chamando esse cenário de “feudalismo criminoso”, com benefícios econômicos, políticos e eleitorais.

— Nós estabelecemos um feudalismo criminoso no Brasil. As milícias não prestam serviços; cobram pelo silêncio, pelo gás, pela televisão ilegal. Não é segurança, mas medo criado por eles para evitar reações. Ninguém vive juridicamente em segurança nesse contexto. É claro que há vantagens econômicas, eleitorais e políticas — disse.

Interesses pessoais e corrupção

A ministra destacou que a corrupção é o principal elemento presente nos fatos do processo e que interesses pessoais cegaram os envolvidos, criando ilusões de poder.

— O ponto principal e preocupante é a corrupção. Os interesses individuais iludem as pessoas, fazendo-as acreditar que são gigantes ou semideuses. Não vejo maior ameaça à convivência democrática e às relações sociais do que a corrupção e a desonestidade — declarou.

Impacto emocional do processo

Cármen Lúcia revelou que analisar o processo tem causado impacto em sua saúde emocional, psicológica e física.

— Este processo tem me feito muito mal. Espiritualmente, psicologicamente e até fisicamente nas últimas semanas, ao ler repetidamente documentos e ver vídeos sobre o que ocorreu. Para quem tem fé, Mater Dolorosa não é só imagem; é símbolo profundo de sofrimento imposto por atos cruéis. Aprendi que se pode arrancar a alma de alguém sem ferir seu corpo. O assassinato de um filho e uma filha é um exemplo disso. O vínculo que se perde no nascimento aqui foi destruído por um assassino movido por ódio, ganância e falta de humanidade — contou.

Justiça e dor

Por fim, a ministra frisou que a Justiça humana não é suficiente para diminuir essa dor, e que o julgamento representa uma resposta modesta do Direito diante do sofrimento das famílias.

— A Justiça humana não cura essa dor. Este julgamento é apenas uma resposta tímida e quase constrangida do Direito frente à dor intensa da mãe, da filha, do filho, das viúvas e da trabalhadora que sobrevive, sendo que todos têm direito à vida plena, e não apenas à sobrevivência — concluiu.

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