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O mundo novo de Trump visto globalmente
Da Venezuela à Groenlândia, passando pelo “Conselho da Paz”, Donald Trump está moldando uma nova ordem mundial, uma era de impérios e restrições. A AFP conversou com diversas autoridades que observam a antiga ordem desmoronar diante de seus olhos.
Em entrevistas e conversas privadas, ministros, assessores, legisladores e militares do Brasil, Alemanha, Filipinas, Taiwan e Colômbia — entre outros países — explicam como essa instabilidade ameaça suas nações. Alguns alertam que o processo de transformação será complexo.
“Estamos vivendo uma transição muito difícil para uma nova ordem que precisará emergir mais cedo ou mais tarde. Entretanto, esses períodos de mudança às vezes trazem consequências sérias”, prevê Celso Amorim, assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Observando o mundo de ontem, com suas regras e costumes, “somos todos obrigados a reconhecer que o rei está nu”, comenta um diplomata filipino sob anonimato, fazendo alusão à famosa história em que ninguém tinha coragem de dizer a verdade até alguém revelar a realidade.
“Costumávamos acreditar que existiam leis e normas internacionais”, observa Weng Hsiao-ling, parlamentar do Kuomintang, partido opositor de Taiwan.
A tirania da geografia
Embora haja consenso na interpretação da situação, as conclusões variam de continente para continente.
Qual será o posicionamento do Brasil, potência emergente e membro dos Brics, mas situado no limite da doutrina Monroe 2.0 de Washington? Amorim defende a continuidade.
“Consolidar o que já foi alcançado: o acordo comercial UE-Mercosul, manter boas relações com China, Índia, o Brics, mas também com os Estados Unidos”. E acrescenta: “Queremos manter boas relações com Washington, porém baseadas em respeito mútuo”.
Essa busca por equilíbrio e distanciamento da hegemonia americana pode ser complicada para muitos países do continente, como o México, vizinho frequentemente pressionado pelo temperamental presidente americano.
Os Estados Unidos “acreditam que o alinhamento do México com o império americano é automático. Não creio que seja tão simples”, afirma Ricardo Monreal, líder do partido governista Morena na Câmara dos Deputados.
“Nossa margem de manobra é muito restrita devido à forte dependência. A proximidade é inevitável. Somos vizinhos, como disse Alan Riding, vizinhos distantes”, destaca. “Mas reitero que o México, com 110 ou 120 milhões de habitantes, é um país capaz de definir um bloco econômico, e o tratamento que os Estados Unidos dispensam ao México não é de um parceiro. Querem que seja subordinado. E duvido que consigam isso”, acrescenta.
Esperança de proteção
China e Rússia, por sua vez, podem sentir-se encorajadas pelas atitudes do governo dos Estados Unidos. Os países potencialmente ameaçados acreditam estar sob proteção.
Em Taiwan, cuja sobrevivência política depende fortemente do apoio de Washington, o deputado Wang Ting-yu, do partido governista DPP, acredita que a captura de Nicolás Maduro na Venezuela é um aviso aos regimes autoritários, que pensarão “duas vezes antes de provocar uma invasão ou um conflito”.
“Devemos agir com prudência, pois a China aprenderá lições com essa operação e poderia tentar imitar”, alerta.
Nas Filipinas, a dependência dos Estados Unidos para a segurança das rotas comerciais globais é vista como fator crucial.
“O futuro econômico dos Estados Unidos depende muito da região do Indo-Pacífico, especialmente da Asean e das Filipinas. Se a Groenlândia é chave para sua segurança nacional, o Indo-Pacífico é vital para sua segurança econômica”, observa o diplomata filipino citado anteriormente.
“Embora as ações de Trump causem preocupação, existe uma sensação de segurança, e esperamos não estar enganados”, diz ele.
Mundo “darwiniano”
Na Europa, que durante décadas viveu protegida dos soviéticos graças ao poder dos Estados Unidos e que, segundo várias teorias das relações internacionais, continua essencial para Washington por sua posição como porta de entrada para a Eurásia, “estamos totalmente paralisados”, lamenta um oficial militar de alta patente sob anonimato.
“O mundo tornou-se novamente um lugar darwiniano. Não é a inteligência que prevalece, mas a capacidade de adaptação rápida” a essa nova realidade.
“Precisamos manter os Estados Unidos ligados à Europa o máximo possível”, afirma Armin Laschet, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento alemão.
Mesmo que isso signifique chegar ao extremo de chamar Donald Trump de “papai”, como fez o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, na cúpula de junho passado em Haia.
Nesse cenário de reconfiguração, o que fazer com os instrumentos da ordem multilateral, como a ONU, que está inativa há anos?
O vice-ministro das Relações Exteriores da Colômbia, Mauricio Jaramillo, expressou surpresa ao notar que diplomatas do Conselho de Segurança da ONU, da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da Organização dos Estados Americanos (OEA) não reagiram ou não classificaram como grave a captura de Maduro.
“As Nações Unidas precisam ser fortalecidas; devem representar um espaço genuíno para coordenação multilateral e assegurar que, em situações como essa, a lei do mais forte — seja pelo maior exército ou economia — não prevaleça”, disse a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, em sua coletiva de imprensa em 7 de janeiro.

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