Centro-Oeste
Polícia civil registrou 86 investigações contra agentes por violência doméstica de 2020 a 2025
Na metade da década passada, Joana* casou-se com um agente de segurança. Celebraram a união na igreja e no cartório. No entanto, cinco meses depois começaram as agressões. Joana não podia trabalhar ou participar de eventos sociais, e até suas roupas eram controladas pelo companheiro, que demonstrava ciúmes constantes. Durante o namoro, o relacionamento era de carinho e respeito, mas mudou drasticamente após o casamento.
O homem, policial civil, cometia violências físicas, materiais e psicológicas por dois anos. Ele andava armado em casa e usava sua influência policial para impedir qualquer tentativa de denúncia ou solução para o ciclo de violência. Essa posição hierárquica dificultava que Joana se manifestasse contra os abusos.
Esse caso é um exemplo de muitas mulheres no Distrito Federal. Segundo dados da Polícia Civil, entre 2020 e 2025, foram instaurados 86 inquéritos contra agentes da corporação por violência doméstica com base na Lei Maria da Penha. Além disso, há 53 sindicâncias abiertas no mesmo período. Esses números indicam um problema significativo, embora nem todos os inquéritos estejam relacionados às sindicâncias internas.
Fontes dentro da Polícia Civil afirmam que, apesar dos números elevados e da legislação antiga, a instituição tem evoluído, especialmente com a criação da Divisão Integrada de Atendimento à Mulher (DIAM). A DIAM está ligada diretamente à Direção-Geral e demonstra preocupação com agentes que são vítimas de violência doméstica, inclusive por policiais.
Tiro no pé
A delegada Karen Langkammer, atual diretora da DIAM, foi baleada no pé por um agente da própria Polícia Civil, Rodrigo Rodrigues Dias, em 2023. Ele agrediu a companheira em público e, ao ser abordado desarmada pela delegada, sacou uma arma e disparou contra ela, ferindo também uma amiga da delegada no ricochete. Rodrigo foi condenado a três anos de prisão, mas o processo ainda está em instâncias recursais. Apesar disso, ele permanece na Polícia Civil, porém realizando apenas trabalhos administrativos e sem direito a portar armas.
Panorama
Joana precisou deixar o Brasil em 2017 e ficou mais de um ano longe da família, que a apoiou durante esse período difícil. Ao retornar, ela enfrentou novo medo, pois o ex-companheiro a procurou e a intimidava mesmo estando armado. Joana lamenta que policiais usem seus cargos para cometer crimes e desrespeitar a segurança pública.
Atualmente, Joana ajuda mulheres em situação de vulnerabilidade causada por violência doméstica. Os casos de agressões cometidas por agentes da Polícia Civil representam apenas a ponta do iceberg no Distrito Federal. Entre 2015 e janeiro de 2026, foram registrados 236 feminicídios no DF. Desses, 70,8% aconteceram dentro de casa, muitos casos envolveram a vítima e o agressor morando juntos, e mais de 80% das mulheres vitimadas eram mães.
Dos agressores, 75,2% tinham antecedentes criminais, e quase 30% já haviam registrado denúncias por agressões domésticas. Além disso, 62,6% das vítimas sofreram violência antes do feminicídio.
Joana afirma que quem comete violência contra mulheres deve ser punido severamente para evitar que o agressor se sinta encorajado a repetir o crime.
Seis por uma dúzia
No ano passado, o número de atendimentos a mulheres vítimas de violência no primeiro semestre se aproximou do total do ano anterior, com 988 atendimentos em seis meses contra 1.102 no ano completo. Karen Langkammer considera que esse aumento pode ser resultado da maior confiança das mulheres no sistema e do acesso facilitado aos registros policiais.
Ela também aponta mudanças culturais dentro da Polícia Civil, com diminuição do corporativismo e maior empenho para expulsar os agentes que mancham a imagem da corporação.
*Nome fictício por solicitação da personagem

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