Economia
Quais companhias petrolíferas estrangeiras ainda operam na Venezuela e qual a possibilidade de retorno de outras?
No início dos anos 2000, grandes empresas petrolíferas reconheceram o potencial de grandes lucros, mas também os riscos envolvidos na Venezuela.
Duas fases de nacionalização conduzidas pelo governo de Hugo Chávez dividiram as companhias estrangeiras entre permanecer no país ou sair. Entre as que permanecem estão empresas da Espanha, Itália e França, além de uma companhia norte-americana com autorização especial.
Seduzidas pelas vastas riquezas naturais, continuam atuando na Venezuela a espanhola Repsol, a italiana Eni e a francesa Maurel & Prom, que mantêm parcerias com a estatal Petróleos de Venezuela S.A.
A Chevron, dos EUA, firmou acordos para continuar suas operações durante o governo de Chávez e manteve permissão para atuar sob administrações republicanas e democratas nos últimos anos.
Hoje, a Chevron extrai cerca de 140 mil barris diários do petróleo venezuelano e os encaminha para refinarias no Golfo do México. Com uma produção que representa aproximadamente 20% do petróleo do país, a empresa desempenha um papel fundamental para impulsionar a produção local.
No entanto, surgem dúvidas sobre o retorno de outras petrolíferas estrangeiras que saíram do país após a destituição de Nicolás Maduro em um ataque coordenado por Donald Trump neste sábado.
Até o momento, o foco da Chevron tem sido garantir o pagamento de suas dívidas pendentes, em vez de investir no aumento da produção. A empresa declarou que continua atuando de acordo com todas as leis e normas aplicáveis, priorizando a segurança de seus colaboradores e a proteção de seus ativos.
Especialistas do setor não veem clara a disposição das grandes petrolíferas estrangeiras em investir grandes quantias de dinheiro em um país governado temporariamente com apoio dos Estados Unidos e sem regras legais e fiscais definidas.
Empresas deixaram o país, mas podem retornar
As nacionalizações deixaram um impacto negativo em companhias como Shell, Exxon e ConocoPhillips, sendo que estas duas últimas ainda aguardam bilhões de dólares em compensações após terem seus ativos confiscados.
A ExxonMobil, maior petrolífera dos EUA, teve seus ativos expropriados em 2007. Em 2014, recebeu US$ 1,6 bilhão de um tribunal internacional pela nacionalização de seu projeto Cerro Negro na região petrolífera do Orinoco. Em novembro de 2025, o CEO Darren Woods afirmou que consideraria investir na Venezuela, mas somente sob condições econômicas adequadas: “Eu não colocaria isso na lista nem tiraria da lista.”
No ano anterior, o Banco Mundial rejeitou o pedido da Venezuela para anular uma indenização de US$ 8,37 bilhões à ConocoPhillips pela expropriação dos projetos Hamaca, Petrozuata e Corocoro. Para Francisco Monaldi, diretor de política energética para a América Latina da Universidade Rice, nos Estados Unidos, a empresa tem “fortes incentivos para voltar” e reaver seus direitos, embora o retorno seja “altamente improvável” em meio à instabilidade política atual.
Questionada, a ConocoPhillips disse estar acompanhando os acontecimentos na Venezuela e suas possíveis consequências para o fornecimento e estabilidade energética global, avaliando que seria prematuro especular sobre futuros investimentos.
Retorno em curto prazo enfrenta obstáculos
Analistas destacam as dificuldades para uma retomada rápida da produção por empresas americanas, citando o aumento dos riscos geopolíticos e a importância da posição chinesa neste contexto, que gera incertezas para o mercado mundial de petróleo após a intervenção militar inédita de Trump.
As petrolíferas dos EUA terão que se alinhar à estratégia de Trump em um país instável, sob intervenção militar estrangeira e com conflitos sociais intensos. Além disso, as tensões com a China tendem a aumentar, provocando instabilidade na América Latina, incluindo o Brasil, importante receptor de investimentos chineses em energia e agricultura, alerta o professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida.
Ele observa que “Trump não controla as decisões das empresas americanas. Quem vai arriscar investimentos significativos em um país sob intervenção militar e em convulsão social? É improvável que as empresas adotem uma postura concreta e massiva no momento, devido à alta instabilidade.”


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