Brasil
soldado morta por coronel perguntou a psicóloga se ele teria coragem de matá-la
Amiga da soldado Gisele Alves Santana desde 2022, uma psicóloga da Polícia Militar contou aos investigadores que a vítima lhe perguntou se o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, seu marido, teria coragem de matá-la. Segundo a psicóloga, Gisele descreveu diversos episódios de agressividade do militar, incluindo discussões em que suas veias ficavam salientes no pescoço.
O crime aconteceu às 7h28 do dia 18 de fevereiro no apartamento do casal, no bairro do Brás, São Paulo. Ferida na cabeça por um tiro de pistola .40, Gisele foi levada ao Hospital das Clínicas, mas faleceu às 12h04. O coronel nega o assassinato, afirmando que Gisele, com quem morava desde 2023, tirou a própria vida com sua arma.
A psicóloga, que atua na PM há 28 anos, conheceu Gisele quando esta passou a ser sua auxiliar, e desenvolveram um laço próximo, como uma relação de mãe e filha.
Na época, Gisele parecia estar separada de Rosa Neto, embora ele mantivesse contato constante, incluindo mensagens no WhatsApp. Enquanto ela morava no Itaim Paulista, ele residia em São José dos Campos.
Na quarta-feira (18), o V Tribunal do Júri da Capital recebeu a denúncia do Ministério Público contra o militar, preso em São José dos Campos, acusado de feminicídio qualificado, considerando violência doméstica e agravantes que dificultaram a defesa da vítima.
A psicóloga relatou que o relacionamento entre Gisele e o coronel era turbulento, com tentativas de separação frustradas devido ao comportamento obsessivo dele. Ela afirmou que Gisele não demonstrava amor verdadeiro pelo marido.
Episódios de agressividade foram registrados pela psicóloga, que descreveu o tenente-coronel como persuasivo, manipulador e obcecado pela companheira. Antes mesmo do casamento em 2024, Gisele já apontava características incompatíveis de Rosa Neto para um relacionamento saudável.
O militar exercia vigilância diária sobre Gisele, frequentando o quartel para observá-la discretamente e chegando a se descontrolar quando outra mulher elogiava sua beleza.
Após o casamento, embora a psicóloga não avaliasse positivamente a relação, continuou acompanhando possíveis situações de agressão. A denúncia afirma que Gisele, cansada dos abusos, decidiu se divorciar, mas teve o pedido negado por Geraldo Rosa Neto.
Entre os relatos, uma abordagem ríspida ocorreu quando ele tentou apreender a mala dela na saída do quartel e insistiu fisicamente para que entrasse no carro, mas ela resistiu.
Havia controle sobre o cotidiano de Gisele, incluindo tentativas de alinhar escalas para estar próximo, interferência em atividades extras e críticas ao modo como ela se vestia, como o uso de uniforme e roupas de academia.
“Gisele era muito vaidosa. Ela dizia que seu marido se incomodava com ajustes no uniforme, maquiagens e perfumes, chegando a maquiar-se na seção ou após assumir o serviço no alojamento”, relatou a psicóloga. “Ela confidenciou que o coronel não queria que usasse roupas de academia.”
Gisele se sentia sufocada e controlada, segundo sua amiga.
Deixou uma filha de sete anos de outro relacionamento e evitava que a menina ficasse sozinha com o padrasto, que já tinha sido reclamado pela criança por atitudes ríspidas.
Sobre a vida conjugal, a psicóloga relatou desconfiança de Gisele em relação a uma possível traição do coronel, que teria envolvimento com outra policial, agravando a relação.
Apesar de considerar separar-se, Gisele estava preocupada com o impacto na filha, especialmente no ano letivo, decidindo suportar a situação para garantir estabilidade à criança.
Segundo a psicóloga, Gisele não apresentava sinais de depressão ou comportamento de suicídio, ao contrário, estava motivada com planos pessoais e profissionais, como curso de nutrição, transferência para a Assessoria Policial Militar do Tribunal de Justiça, celebração de promoção recente e entusiasmo com a possibilidade de subir a patente para sargento.

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