Centro-Oeste
Telefone público está sumindo no Distrito Federal
Antes dos celulares serem comuns para todos, os orelhões eram muito usados para fazer ligações. A ideia surgiu em 1971, criada pela arquiteta chinesa Chu Ming, que morava no Brasil. Eles permitiam que as pessoas se comunicassem em lugares públicos, de forma prática e barata, sem precisar usar cartas, fax ou telefones fixos caros.
O orelhão foi instalado pela primeira vez no Rio de Janeiro em janeiro de 1972 e logo depois, em São Paulo. Em Brasília, os orelhões já estavam presentes logo após a cidade ser fundada, substituindo as antigas cabines telefônicas fechadas. Hoje, no Distrito Federal, só restam dois orelhões funcionando, ambos da operadora Oi.
Quem nasceu nas décadas de 70, 80 e 90 lembra que usar orelhão fazia parte do dia a dia. Fernanda Fontella, uma moradora de Brasília de 48 anos, tem boas lembranças dos orelhões e até guardava cartões telefônicos, com cerca de 200 unidades em casa. Na década de 90, o orelhão era uma forma essencial de se comunicar, pois nem todo mundo tinha telefone fixo em casa, que era caro.
Fernanda recorda uma história especial: uma amiga que morava longe já na Bahia, que ficou 40 minutos na fila de um orelhão só para ligar e dar parabéns de aniversário. Isso mostrava o quanto o aparelho tinha valor e era uma prova de carinho.
Ela também relembra que os orelhões eram coloridos para diferentes usos: os laranjas para chamadas locais e os azuis para chamadas de longa distância e internacionais. As fichas usadas para ligações duravam pouco tempo e era preciso colocar outra rapidamente para não interromper a ligação. Depois vieram os cartões telefônicos, vendidos em bancas e padarias, que facilitavam o uso.
Os orelhões também eram usados como contato em currículos e para marcar entrevistas de emprego. Muitas pessoas só conseguiam ser encontradas por meio deles.
Com o avanço dos celulares, a manutenção dos orelhões diminuiu e eles foram sumindo das ruas, especialmente em locais como escolas, hospitais e centros comerciais, diz Fernanda. Apesar disso, ela acredita que os orelhões ainda podem ser úteis em lugares onde o acesso a celulares e internet é difícil.
Público mais jovem
Para os jovens, orelhões foram mais uma etapa entre tecnologias antigas e modernas. Henrique Araújo, de 29 anos, lembra que ao chegar em Brasília em 2006, havia muitos orelhões espalhados. Na adolescência, ele combinava encontros com amigos por meio dos orelhões e também usou para conseguir seu primeiro estágio.
Apesar de sentir uma certa nostalgia com o fim dos orelhões, Henrique acha que com a popularidade dos celulares, os telefones públicos perderam importância e hoje são considerados obsoletos.
Fim da concessão acelera retirada dos telefones públicos
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que os orelhões estavam ligados aos contratos de concessão da telefonia fixa, que acabaram em dezembro de 2025. Com isso, as empresas começaram a mudar para um modelo de autorização, focado mais em investir em internet de banda larga.
As operadoras se comprometeram a manter os orelhões até o final de 2028 somente em locais onde não existam outras opções de comunicação por voz, como telefonia móvel. Não há previsão para a remoção imediata dos orelhões que não são obrigatórios, mas a partir de 2026 a desativação pode começar.
Em todo o Brasil, cerca de nove mil orelhões devem continuar funcionando até 2028 para garantir comunicação básica em áreas mais vulneráveis ou sem sinal de celular adequado.
Em 2025, o Brasil tinha 38.354 orelhões instalados. A operadora Oi já reduziu bastante sua quantidade, mantendo apenas os aparelhos onde é obrigatória por lei. Outra empresa, Sercomtel, deve manter todos os seus orelhões no Paraná até ajustar seu serviço ao novo modelo.
A Oi informou que mantém orelhões apenas onde a Anatel exige, em lugares sem outras opções para fazer chamadas de voz. A empresa deixou de ser concessionária em 2024 e agora atua mediante autorização, sem obrigação de universalização do serviço. Os telefones públicos só continuarão onde a Oi for a única prestadora. A retirada dos orelhões que não são usados seguirá um cronograma conforme a capacidade da empresa.

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