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Última visão de Rubem Braga

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Não guardo nenhuma queixa dos dois anos em que vivi em Ipanema. Nunca tive a chance de trocar sequer um cumprimento com meu vizinho, Nelson Rodrigues. Morávamos no terceiro andar de um prédio. À esquerda, a praia se mostrava em toda a sua beleza, aguardando os banhistas. À direita, a praça de Nossa Senhora da Paz. Na esquina com a Visconde de Pirajá, ficava a loja de moda feminina Biba, onde eu ocasionalmente avistava a atriz Dina Sfat junto com seu marido, o ator Paulo José.

No entanto, Millôr Fernandes fez uma ressalva em uma edição de julho de 1971 da revista “O Pasquim”. Seu texto, intitulado “A Última Vez que Vi Rubem Braga”, começava assim:

“Tenho um estúdio de trabalho em uma extremidade da praça General Osório, em Ipanema. Rubem Braga mora no edifício oposto. Meu estúdio é modesto, uma cobertura com uma sala, jardins, quartos, banheiros, além de acomodações para empregados e hóspedes. Já a cobertura de Rubem Braga, embora simples, possui instalações semelhantes às minhas e um viveiro com 1.500 pássaros, entre eles um sabiá-quincas, muito raro, e uma águia do Nordeste, única em sua espécie. O local também tem uma horta, jardins e uma plantação de cana invejável. Rubem tem um solário para as moças, uma piscina pequena onde o Fiolo às vezes treina e um playground para crianças, onde ele mantém presas as crianças dos vizinhos quando estão incomodando.”

Millôr Fernandes continua: “Ipanema era agradável, com construções de até quatro andares (seis contando pilotis e coberturas). Os prédios onde estavam o Rubem e eu, em nossa localização privilegiada, eram dos poucos mais altos. Do meu estúdio, eu podia ver Ipanema e além, incluindo a Lagoa Rodrigo de Freitas, o mar, o Corcovado e o Pão de Açúcar. Rubem Braga, do seu apartamento, tinha uma vista incrível e, mais importante, podia me ver! Todas as manhãs, trocávamos sinais efusivos do alto de nossos edifícios. A distância impedia conversas diretas, mas nos cumprimentávamos com sinais visuais.”

Porém, veio a reclamação: “Assim permanecemos por anos, com nossos frequentes cumprimentos. Até que o governo de Carlos Lacerda aprovou uma medida desastrosa para Ipanema, elevando o limite de construção e transformando o bairro, antes charmoso, em algo semelhante a uma favela como Copacabana. A especulação imobiliária cresceu descontroladamente, cercando o edifício do Rubem Braga com prédios cada vez maiores: Nova York, Canadá, Sergen, Gomes de Almeida Fernandes. Aos poucos, Rubem Braga foi desaparecendo da minha vista, preso entre esses monstros da arquitetura. E assim, chegou o dia em que foi a última vez que o vi.”

Após ler essa crônica de Millôr Fernandes sobre Rubem Braga, encontrei em minha estante um livro chamado Rubem Braga, o poeta e outras crônicas (Global Editora, São Paulo, 2017, página 59), que reproduzo aqui, pois nele Braga se refere com carinho ao grande poeta modernista pernambucano Manuel Bandeira:

“Recordo com surpresa e orgulho a sensação que tive quando, um pouco mais tarde, escrevia crônicas para um jornal em Belo Horizonte e soube que algumas pessoas pensavam que Rubem Braga era um pseudônimo de Manuel Bandeira. Isso porque eu havia sido muito influenciado por Manuel, não por suas crônicas, que ainda não conhecia, mas por seus poemas.”

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