Economia
Conheça a maior disputa no mundo da tecnologia
A Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial (IA) em Nova Délhi, Índia, que termina nesta sexta-feira (20), reuniu governantes, pesquisadores e grandes empresas de tecnologia para debater o futuro da tecnologia e anunciar investimentos no Sul global.
Porém, o evento trouxe à tona a maior disputa atual no setor tecnológico, envolvendo OpenAI e Anthropic. Essas duas empresas líderes em IA competem nos mesmos mercados, oferecem produtos similares e disputam os mesmos investimentos, além de manterem uma rivalidade histórica.
No dia 19, ao final da sessão principal que contou com palestras de nomes como Sundar Pichai, CEO do Google, e Emmanuel Macron, presidente da França, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi pediu para todos segurarem as mãos para uma foto.
Brad Smith, presidente da Microsoft, Alex Wang, chefe de IA da Meta, Demis Hassabis, chefe de IA do Google, e o próprio Pichai seguiram o pedido prontamente. No entanto, chamou a atenção que Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic, recusaram-se a dar as mãos, mantendo os punhos cerrados, simbolizando a tensão entre as empresas.
Essa rivalidade se intensificou nas últimas semanas. Durante o SuperBowl, a Anthropic veiculou um comercial criticando a OpenAI por inserir anúncios no ChatGPT, afirmando: “Os anúncios chegam à IA, mas não ao Claude”. Após o comercial, a utilização do Claude cresceu 6,5%, segundo o BNP Paribas.
Altman respondeu chamando o anúncio de desonesto e acusando o Claude, chatbot da Anthropic, de ser um produto exclusivo para “pessoas abastadas”. Amodei também mencionou que não buscava maximizar o engajamento de um bilhão de usuários, durante o Fórum Econômico Mundial.
Essa disputa lembra outras antigas rivalidades no mundo tech, como Apple vs Microsoft, Google vs Microsoft, Google vs Meta, entre outras. Contudo, diferentemente dessas rivalidades, onde as gigantes mantêm laços complexos e parcerias, a OpenAI e a Anthropic competem diretamente pelo mesmo mercado e público.
A OpenAI e a Anthropic oferecem produtos similares, buscam o mesmo espaço como líderes em IA pura e lutam pelos mesmos investidores. Segundo Anderson Soares, diretor e cofundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, “O que está em jogo nessa rivalidade é o futuro da internet e das formas de trabalho, algo que acontece uma vez a cada três décadas”.
Embora o ChatGPT lidere entre os chatbots, ele perde espaço para concorrentes. Dados da Apptopia mostram queda de 69,1% para 45,3% na participação do ChatGPT de janeiro a 2025, enquanto o Claude lidera em engajamento, com 34,7 minutos de uso por sessão.
A Anthropic conquistou um público fiel entre desenvolvedores com produtos como Claude 4.6 Sonnet e Claude Cowork. Segundo Diogo Cortiz, cientista cognitivo e professor da PUC-SP, “a OpenAI ainda domina os chatbots, mas a Anthropic ganhou força com desenvolvedores e clientes corporativos”.
Em um capítulo recente da disputa, a OpenAI contratou o desenvolvedor Peter Steinberger, fundador do agente de IA OpenClaw, depois de ameaças judiciais feitas anteriormente pela Anthropic contra ele.
Guerra financeira
Ambas as empresas buscam os mesmos investidores para financiar seu crescimento. A OpenAI deve receber um aporte de US$ 100 bilhões, elevando seu valor de mercado para US$ 850 bilhões. A Anthropic, que levantou US$ 57 bilhões recentemente, está avaliada em US$ 380 bilhões.
Investidores como Sequoia Capital, Altimeter Capital, Blackstone, MGX, JPMorgan, Amazon, Nvidia e Microsoft investem em ambas as companhias, algo raro em concorrentes diretos.
Quanto a resultados financeiros, a Anthropic espera atingir o ponto de equilíbrio em 2028, enquanto a OpenAI prevê perdas operacionais de US$ 74 bilhões em dois anos e só alcançar lucratividade em 2030, após investir muito mais em data centers e chips. A Anthropic optou por operações mais enxutas, renunciando a alguns modelos de IA, focando em crescimento sustentável.
Origem da rivalidade
A rivalidade tem origem na criação da Anthropic em 2021, fundada por 15 ex-pesquisadores da OpenAI que discordavam das estratégias de Sam Altman, que priorizava a ambição comercial em detrimento da segurança no desenvolvimento da tecnologia.
Segundo jornais, esses dissidentes tentaram destituir Altman da OpenAI, mas, após a tentativa fracassar, saíram para fundar a Anthropic.
A OpenAI, fundada em 2015 como laboratório de pesquisa, evoluiu para entidade comercial após receber US$ 1 bilhão da Microsoft, o que ampliou divergências internas.
Dario Amodei resistiu a lançar publicamente o GPT-2 inicialmente, enquanto só lançou o Claude após o sucesso do ChatGPT, justificando que desenvolver IA sem as devidas proteções oferece risco à humanidade. Ele criou o conceito de “IA constitucional”, que impõe diretrizes éticas rigorosas aos modelos de IA.
No entanto, tanto Altman quanto Amodei suavizaram suas visões mais pessimistas para focar nos benefícios da IA para a humanidade e para seus negócios.
Recentemente, Mrinank Sharma, pesquisador de segurança da Anthropic, pediu demissão citando preocupações sobre a tecnologia e escreveu: “O mundo enfrenta perigo não só pela inteligência artificial ou armas biológicas, mas por múltiplas crises interligadas que ocorrem agora”.
Essa declaração mostra que as preocupações sobre a IA e seu impacto global continuam sendo um tema urgente tanto para Amodei quanto para os demais envolvidos.


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