Conecte Conosco

Notícias Recentes

Redescobrindo Rubem Braga e seus Retratos Franceses

Publicado

em

Entre 1949 e 1951, trinta e um textos foram escritos após Rubem Braga, renomado jornalista, acompanhar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália durante o final da Segunda Guerra Mundial (1944-1945). Antes de exercer o cargo de embaixador brasileiro no Marrocos entre 1961 e 1963, nomeado por Jânio Quadros, Braga produziu textos que nunca tinham sido publicados em livro até pouco tempo atrás, quando descobriu-se que a editora José Olympio os reuniu sob o título “Retratos franceses”.

O interesse inicial de Rubem Braga estava voltado para escritores e o cenário literário, destacando-se pela atenção à vanguarda liderada por figuras como André Breton e Jean Cocteau, e também por autores consagrados como Jean Paul Sartre e Jacques Prévert. Em sua coluna “Recado de Paris”, relatava novidades sobre revistas, livrarias e lançamentos, incluindo nomes como Paul Valéry, André Gide, Paul Claudel e François Mauriac.

Além da literatura, Braga dedicou-se à pintura, demonstrando predileção por artistas como Pablo Picasso, Georges Braque e Henri Matisse, e expressando reservas em relação a Marie Laurencin, Marc Chagall e De Chirico. Em um de seus textos, comenta a obra “O rio São Francisco”, óleo sobre tela de 1638 do artista Franz Post, descrevendo vividamente elementos naturais presentes na pintura.

O diferencial desta obra está na forma inovadora como Braga aborda os artistas, criando perfis que mesclam múltiplas perspectivas e vozes, ultrapassando o modelo tradicional de entrevistas. Apesar do foco em Paris, a obra também reconhece autores italianos como Alberto Moravia, alemães como Thomas Mann, e artistas russos e mexicanos, mostrando a riqueza do cenário artístico internacional do período.

Em seus relatos, Braga visita museus e galerias, mas valoriza as interações pessoais: acompanha Foujita com Clovis Graciano, ouve Duke Ellington na companhia de Antônio Bandeira, socializa com Cícero Dias e Raymonde, diverte-se com o espanhol Miró e o norte-americano Calder ao ritmo do samba. Conversa ainda com Portinari e Clovis Graciano, retornados da Itália e influenciados pelos pré-renascentistas, celebrando a presença de 21 pintores brasileiros em Paris.

A habilidade de Rubem Braga, proveniente de sua experiência como jornalista e sensibilidade como escritor, foi decisiva para sua convivência com a elite artística europeia do século XX. Segundo Augusto Massi, da USP, que escreveu o prefácio do livro, Braga realiza um delicado equilíbrio entre se ocultar e se revelar, aparecendo somente quando a beleza da cultura brilha intensamente.

Massi também diferencia o olhar do cronista daquele do jornalista, destacando a aproximação lenta e respeitosa do primeiro, em contraste com a investigação mais agressiva do segundo.

O livro encerra com Braga refletindo sobre o poeta Eugênio Montale, cuja poesia trata da condição humana com delicadeza, valorizando a consciência do essencial diante do transitório. Em tempos difíceis, Braga oferece uma leitura que celebra a leveza e a resistência da beleza cultural.

Clique aqui para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe um Comentário

Copyright © 2024 - Todos os Direitos Reservados