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China aposta em inovação e energia limpa
No evento mais relevante do calendário político chinês, realizado no mês passado, a principal notícia econômica foi a meta modesta de crescimento do PIB anunciada para este ano. O Legislativo estabeleceu uma previsão de expansão entre 4,5% e 5%, um pouco inferior à do ano anterior, por volta de 5%, representando a menor meta desde 1991 e sinalizando uma desaceleração moderada.
Para muitos, esse anúncio confirmou que a economia chinesa está enfrentando desafios, como pressões geopolíticas, uma crise no setor imobiliário e dificuldades para estimular o consumo. No entanto, para o governo, a prioridade mudou para um “crescimento de alta qualidade”. Com o lançamento do 15º Plano Quinquenal, a China estabeleceu uma visão de médio prazo focada em inovação e uma transição energética.
Período de mudança
A intenção é perseverar na transição: sair de um modelo econômico baseado em investimentos e exportações — que antes gerava crescimento anual de dois dígitos até 2010, mas que agora está desgastado — para um novo modelo baseado no aumento da produtividade e na autossuficiência tecnológica, com ênfase no consumo interno como principal motor do crescimento. Segundo o renomado economista chinês Li Daokui, da Universidade Tsinghua, crises podem ser vistas como oportunidades, como a atual devido à alta do petróleo provocada pela guerra no Irã.
Li destaca que às vezes uma crise é necessária para acelerar ações urgentes, como o aumento do consumo e a transição para fontes de energia renovável, incluindo o hidrogênio verde. A China depende fortemente do petróleo importado, cerca de 72% do consumo, principalmente do Oriente Médio, o que representa um grande desafio.
Enquanto o consumo doméstico ainda não atinge o ritmo desejado, o país mantém sua força como potência exportadora, tendo registrado no ano passado um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão mesmo em meio à guerra tarifária com os EUA. No entanto, a taxa de desemprego entre jovens urbanos (16 a 24 anos) permanece elevada, em 16,1% em fevereiro, apesar de ter diminuído recentemente.
O economista americano Jeffrey Sachs, que visitou a China no final de março, acredita que muitos analistas estrangeiros exageram os riscos e não reconhecem as bases sólidas da economia chinesa, como o planejamento estratégico e o investimento em pesquisa e inovação. Em entrevista, declarou que as visões negativas são muitas vezes fruto de “propaganda ou ignorância”.
Sachs enfatizou que a China lidera setores tecnológicos importantes para o futuro, domina grande parte das tecnologias verdes e veículos elétricos, investe fortemente em pesquisa e tem a produção industrial mais eficiente do mundo, abrigando 26 dos 100 principais polos de inovação globais.
Responsável por cerca de 30% da produção industrial mundial, a China está em um patamar semelhante ao que os Estados Unidos alcançaram após a Segunda Guerra Mundial. Fred Hu, presidente do fundo de investimentos Primavera, considera que o setor industrial continua sendo o principal motor da economia chinesa, mas que o setor de serviços também cresce, impulsionando o consumo. Segundo ele, apesar da crise imobiliária ainda representar um desafio, o pior já passou, pois sua participação no PIB diminuiu de 25% para 10%, reduzindo seu impacto negativo no crescimento.
Incentivos ao consumo
Apesar da indústria estar forte, faltam estímulos eficazes para fomentar a demanda interna, observa Bert Hofman, ex-diretor do Banco Mundial na China e professor na Universidade Nacional de Cingapura. Embora algumas medidas já tenham sido consideradas, como financiamento para governos locais e subsídios para compras, elas ainda são insuficientes.
Hofman aponta que a economia chinesa tem um lado produtivo robusto, graças ao sucesso no desenvolvimento de alta qualidade e na independência tecnológica. Contudo, a demanda permanece fraca, e embora o Plano Quinquenal inclua algumas estratégias para estimular o consumo, é necessário intensificar essas ações diante das dificuldades internas.


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