Economia
IA: escudo ou gatilho na crise financeira futura?
O relógio marca 10h32 em uma segunda-feira qualquer. Um algoritmo de inteligência artificial interpreta de forma negativa um relatório de um grande banco. Em 0,3 segundo, vende bilhões de dólares em ações. Outros 200 algoritmos detectam o movimento e agem da mesma forma. A saída do mercado fica restrita e, às 10h33, o mercado global despenca. Às 10h35, quando os humanos percebem o ocorrido, já é tarde: trilhões de dólares desapareceram.
Essa situação é possível? Especialistas ouvidos pelo Broadcast divergem. Alguns veem a IA como aceleradora de movimentos coletivos, enquanto outros acreditam que a velocidade dos sistemas pode proteger, com algoritmos identificando riscos mais rápido que humanos. Portanto, uma crise como essa poderia ser evitada.
Se a IA será proteção ou ameaça em uma futura crise financeira depende da supervisão humana. Mas ainda existem pontos cegos.
Características da crise na era da IA
Para o professor André Filipe Batista, especialista em ciência de dados e coordenador do Centro de Ciência de Dados do Insper, a próxima crise financeira terá três elementos principais: velocidade, falta de transparência e interconexão algorítmica.
O mercado já é veloz, e com decisões automatizadas, a mudança de tranquilidade para pânico pode ocorrer em segundos.
A opacidade dos modelos, conhecida como “caixa-preta”, dificulta a compreensão dos processos decisórios. Essa falta de transparência pode ser crítica em crises.
Além disso, estratégias homogêneas entre fundos, treinados com dados semelhantes, causam reação em massa ao mesmo sinal, prejudicando a liquidez do mercado. Assim, a crise desencadeada pela IA seria uma crise de informações, segundo Batista.
Deepfakes e impacto na confiança
O cenário piora com a disseminação de deepfakes e notícias falsas. Vídeos manipulados de líderes podem circular rapidamente e influenciar tanto investidores quanto sistemas automáticos. Quando a falsidade é descoberta, os danos já foram causados.
A CEO da Aarin, Ticiana Amorim, alerta sobre uma possível bolha financeira em torno da IA, comparável à bolha das pontocom, devido à alta valorização e investimentos em infraestrutura sem lucros claros.
Para ela, a próxima crise pode se expandir rapidamente, pois a IA é vista como fonte absoluta de verdade, embora seja apenas uma ferramenta de análise.
Ticiana destaca que as crises são sempre inéditas e que modelos baseados no passado podem não prever eventos futuros extremos, como a teoria do Cisne Negro apresentada por Nassim Taleb. A crise da covid-19 em 2020 é exemplo disso.
Riscos da aprendizagem e segurança
Batista explica que se a IA é treinada em períodos estáveis, pode subestimar eventos extremos, criando falsa segurança e gerando decisões arriscadas, como na crise de 2008.
Ele reforça que a IA não diminui o papel humano, apenas exige mais supervisão. A crise ocorre quando a velocidade, a opacidade e a interconexão são descontroladas.
IA como ferramenta preventiva
O diretor da Febraban, Ivo Mósca, tem visão otimista, afirmando que a IA amplia a capacidade de identificar riscos e pode evitar desde fraudes até crises globais.
Hoje, simular milhares de cenários em minutos é possível e ajuda a detectar sinais de alerta antes que o pânico se instale. A IA pode funcionar como freio se bem gerenciada.
O problema não está na tecnologia, mas em como ela é usada. Apesar das diferenças, especialistas concordam que a supervisão humana é indispensável.
Batista defende a criação de uma “arquitetura de confiança em inteligência artificial” para minimizar riscos.

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