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Suíça e seu papel no apoio ao regime militar brasileiro

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De camisa polo, sentado em uma varanda, rodeado por plantas tropicais e a poucos dias do verão carioca de 1970, o empresário suíço Anton Von Salis, então presidente da Swisscam, a Câmara de Comércio Suíço Brasileira, explicava o motivo pelo qual os trabalhadores brasileiros ganhavam menos que os europeus:

“As necessidades são bastante diferentes. Aqui não faz frio. E eles têm moradias. Podem ser casas simples, mas adequadas à realidade do país. Contudo, certamente (…) é um valor bastante baixo”.

A declaração foi dada à RTS, a empresa pública suíça de rádio e TV. Para Von Salis, o golpe que colocou o Brasil sob 21 anos de ditadura militar trouxe estabilidade, mão de obra barata e abriu caminho para o lucro do capital suíço.

Uma pesquisa feita por Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, na Suíça, comparou os salários pagos pelas 14 maiores multinacionais suíças em 1971, mostrando como foi vantajoso para as empresas contar com um regime que reprimia sindicatos, proibia greves e silenciava reivindicações trabalhistas.

Entre os trabalhadores sem qualificação, o valor pago no Brasil equivalia a um quinto do salário de um operário suíço na mesma função. Quando incluída a mão de obra qualificada, a diferença diminui, mas continua favorável para os empregadores: pouco mais da metade (57%) do salário suíço.

O estudo de Gabriella deu origem ao livro Don’t Miss The Bus (Não Perca o Bonde), ainda sem tradução para o português. Ela afirma que, de fato, o capital suíço aproveitou todas as oportunidades oferecidas pela ditadura:

“As empresas suíças usufruíram do que a ditadura proporcionou. Não pagavam impostos nos primeiros dez anos após sua instalação, evitavam tributos sobre remessas de lucros e se beneficiavam da mão de obra barata, do clima de ‘paz social’, do controle salarial rígido, debilitamento do movimento operário, criminalização da oposição, sindicatos e movimento estudantil. Tudo isso gerava confiança no parceiro brasileiro”.

Para o professor Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Unicamp, a política de valorização do salário mínimo foi um dos motivos do golpe militar de 64, e uma das primeiras ações dos militares foi alterar a política de reajuste salarial:

“O governo modificou a indexação do salário mínimo frente à inflação. Com uma inflação já elevada, isso provocou uma rápida perda do poder de compra do salário mínimo. Em um ou dois anos, ele perdeu cerca de 50% do seu valor real.”

Gabriella estimou quanto a defasagem salarial ajudou a aumentar os lucros das empresas suíças:

“Calculei que, só em 1971, as 14 maiores multinacionais suíças no Brasil faturaram cerca de 80 milhões de francos, explorando a mão de obra brasileira.”

Investindo sob opressão

A política de salários achatados e a estabilidade gerada pela repressão atraíram ainda mais capital suíço. Entre 1964 e o fim da década de 70, a Suíça esteve entre os quatro maiores investidores no Brasil, atrás apenas de Estados Unidos e Alemanha, alternando o terceiro lugar com o Japão.

Proporcionalmente, foi o maior investidor, com média de $187,8 per capita — oito vezes o investimento per capita da Alemanha, o segundo maior parceiro comercial brasileiro na época. Na década de 70, a Suíça tinha cerca de 7 milhões de habitantes.

“Dividindo pelo tamanho da população, o investimento suíço não foi só o maior entre os dez maiores investidores, mas destacado nessa posição.”

Em 1973, o investimento suíço direto no Brasil (IED) foi de 1,1 bilhão de francos suíços, quase três vezes o PIB brasileiro na época. Em 1977, já passava de 2,3 bilhões, mais que o dobro do valor anterior. As empresas suíças atuavam em setores como alimentação, metalurgia, petroquímicos, laboratórios farmacêuticos e o sistema financeiro, incluindo bancos suíços conhecidos.

Quando questionado sobre denúncias de prisões arbitrárias e torturas que asseguravam essa estabilidade valorizada pelas multinacionais, Von Salis minimizou:

“Parece que há violações. Mas isso ocorre em todos os países.”

Sequestro

No momento em que o presidente da Swisscam dava a entrevista à RTS, a opinião pública suíça estava ligada no que acontecia no Brasil por causa do sequestro do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher, ocorrido em 7 de dezembro de 1970. A ação foi liderada pelo ex-capitão do exército Carlos Lamarca, líder da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo guerrilheiro urbano que se opunha ao regime militar. Bucher foi libertado após 40 dias, em troca da liberdade de 70 presos políticos que foram exilados no Chile.

O sequestro de diplomatas foi uma tática adotada por movimentos de esquerda na América Latina, em meio a uma sequência de golpes militares e regimes ditatoriais alinhados aos Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Além de Giovanni Bucher, outros três diplomatas foram sequestrados no Brasil: o embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, de 4 a 7 de setembro de 1969; o embaixador da Alemanha, Ehrenfried von Holleben, de 11 a 16 de junho de 1970; e o cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, de 11 a 13 de março de 1971. Todos representavam os maiores parceiros comerciais do Brasil.

Outro ponto de vista

Buscamos contato com o governo suíço através da embaixada no Brasil para compreender a visão atual sobre esses fatos históricos. Por escrito, a Suíça respondeu que “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis na administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas”, mas apoiou a realização de estudos independentes que promovam a compreensão do passado e o debate.

Também procuramos a Swisscam, a Câmara de Comércio Suíço Brasileira. Inicialmente foi oferecida a consulta aos arquivos da organização e prometida uma resposta. Porém, após detalharmos as dúvidas por e-mail, fomos informados por telefone que o presidente da Câmara não estava disponível e, por isso, os arquivos não seriam acessados nem as perguntas respondidas.

Esta matéria faz parte do projeto Perdas e Danos, podcast investigativo sobre a ditadura militar que está em sua segunda temporada. Detalhes sobre a complexa rede das relações diplomáticas entre Suíça e Brasil estão no episódio 1 da segunda temporada, intitulado Relógio Suíço.

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