Mundo
Suíça vigiou e perseguiu brasileiros contra a ditadura
Jean Marc Von der Weid, jovem estudante brasileiro exilado na Suíça, revelou em entrevista à RTS, a rádio e TV pública suíça, os brutais torturas sofridas enquanto esteve preso no Brasil entre 1969 e 1971. Ele foi um dos 70 presos políticos libertados em uma troca pelo embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher.
Durante o exílio, Jean Marc participou de eventos e palestras na Europa denunciando as práticas de tortura da ditadura, o que provocou desconforto no governo suíço, que mantinha relações econômicas estreitas com o regime brasileiro.
A pesquisadora Gaelle Shclier, da Universidade de Lausanne, estudou as ações de ativistas brasileiros e a vigilância da polícia suíça sobre eles, apresentando relatórios que comprovam esse monitoramento. Um documento importante transcreve palavras de Jean Marc durante um congresso: “No Brasil, não há restrição quanto às vítimas da tortura, incluindo crianças”.
Além disso, o estudo destaca os esforços do governo suíço e de empresas locais para divulgar uma imagem positiva do Brasil, inclusive com a presença de figuras como Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento no governo de Castello Branco, em eventos no país.
Gabriella Lima, também da Universidade de Lausanne, ressalta que a atuação dos ativistas comprometia os interesses suíços no Brasil, especialmente porque a opinião pública poderia cobrar medidas como boicotes, semelhantes aos que ocorreram na África do Sul.
Comprometimento do governo suíço
Relatórios policiais e documentos diplomáticos indicam que a Suíça tinha pleno conhecimento das violações cometidas pela polícia e pelo exército brasileiros. Um informe do cônsul suíço no Rio, Marcel Guelat, detalha o uso de tortura física, queimaduras e choques elétricos contra opositores do regime militar.
Apesar disso, o governo suíço manteve relações estreitas com o regime brasileiro e perseguiu ativistas locais, expulsando alguns exilados políticos, como Apolônio de Carvalho e Ladislau Dowbor, sob a justificativa de manter a neutralidade.
Documentos internos do Ministério das Relações Exteriores do Brasil comemoram a expulsão dos ativistas como resultado da boa relação econômica entre os países. Enquanto isso, a embaixada suíça no Brasil reconhece que estudos sobre o tema demandam pesquisas históricas aprofundadas.
Este relato faz parte do projeto Perdas e Danos, que investiga a ditadura militar brasileira, ilustrando como a relação diplomática entre Suíça e Brasil envolveu cumplicidade, vigilância e repressão de opositores do regime autoritário.


Você precisa estar logado para postar um comentário Login