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Trump ameaça destruir civilização milenar

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“Uma civilização inteira desaparecerá esta noite, e jamais será restaurada”, declarou nesta terça-feira (7) o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma nova ameaça de genocídio contra o Irã caso o país não reabra o Estreito de Ormuz.

Acredita-se que a civilização persa, da qual o Irã é herdeiro, possua uma história entre 2,5 mil e 3 mil anos, com diversas contribuições culturais, filosóficas e científicas deixadas para toda a humanidade.

O presidente da maior potência militar e nuclear do mundo vem repetidamente ameaçando destruir o Irã como nação, afirmando que pretende levar o país de volta à “idade da pedra”.

Em entrevista à Agência Brasil, o professor de direito internacional da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Gustavo Vieira, avaliou que as ameaças de Trump são extremamente graves e colocam em risco a paz mundial.

“Essas declarações violam todos os fundamentos do direito internacional, que busca garantir a coexistência pacífica entre as nações. Trata-se de uma ameaça de crime de genocídio, crimes contra a humanidade e de guerra, reconhecidos desde o Tribunal de Nuremberg e normatizados pelo Estatuto do Tribunal Penal Internacional”, explicou o especialista.

Convenções internacionais, como a Convenção de Genebra e a Convenção sobre a Prevenção do Genocídio, proíbem ataques a infraestruturas civis ou ações que possam causar danos às populações civis, exigindo ainda que os Estados adotem o princípio da proporcionalidade em suas ações militares.

Vieira destacou que é desproporcional dizimar uma nação inteira para garantir a reabertura do Estreito de Ormuz. “Este tipo de postura tem consequências muito preocupantes para a comunidade internacional, podendo desencadear uma escalada global no investimento em armamentos e sistemas de defesa”, concluiu.

Para a professora de direito internacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Elaini Silva, a ameaça feita por Trump é uma violação à Carta da ONU.

“É uma imagem da barbárie. Quando a ameaça ultrapassa um uso pontual da força para coerção, visando exterminar um povo, estamos diante de crimes tão graves que podem acarretar responsabilidade pessoal aos governantes”, declarou Elaini Silva, doutora pela Universidade de São Paulo (USP).

O antropólogo Paulo Hilu, coordenador do Núcleo de Estudos do Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), acredita que a guerra e as ameaças feitas por Trump reforçam a República Islâmica do Irã devido ao forte sentimento nacionalista da população.

“Os iranianos possuem uma identidade e consciência nacional bastante sólida. Assim, a ideia de que o Irã será destruído, humilhado ou dominado faz com que apoiem qualquer governo que defenda a soberania do país”, explicou.

Além disso, o antropólogo alertou que, mesmo sem a concretização das ameaças de Trump, a destruição já ocorre. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estima que cerca de 160 monumentos históricos tenham sido danificados ou destruídos por ataques realizados por Estados Unidos e Israel.

Trump evita comentar crime de guerra

Durante uma entrevista coletiva na Casa Branca na segunda-feira (6), o presidente Donald Trump evitou responder a um repórter que questionava se suas ameaças configuravam crime de guerra.

“Você está se comprometendo a cometer um crime de guerra?”, perguntou o jornalista. Trump desviou do assunto, pedindo perguntas diferentes e desconversando com um “o que mais?”.

Em outra ocasião, um jornalista do New York Times perguntou se o presidente estaria violando o direito internacional ao ameaçar atacar infraestruturas civis. Trump respondeu criticando o jornal e afirmou que não permitiria que o Irã desenvolvesse armas nucleares, justificativa utilizada para a guerra. No entanto, mesmo agências de inteligência norte-americanas indicam que Teerã não buscava desenvolver tais armamentos.

Na mesma mensagem em que promete genocídio no Irã, Trump afirmou não desejar que isso aconteça, porém acredita que provavelmente ocorrerá.

“Vamos descobrir isso esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo”, acrescentou. Contraditoriamente, o presidente terminou sua declaração pedindo para Deus abençoar “o grande povo do Irã”.

A civilização persa

De acordo com o antropólogo Paulo Hilu, se considerada a língua persa, a civilização mencionada por Trump tem entre 2,5 mil e 3 mil anos. Contudo, a ocupação humana na região do atual Irã data do período neolítico, podendo chegar a até 10 mil anos.

Um dos maiores legados dessa civilização é a ideia filosófico-teológica de que existe uma divindade boa em oposição às forças do mal, herança do zoroastrismo, originado na região atual do Irã. Essa crença influenciou o judaísmo e posteriormente o cristianismo.

“A noção de um bem absoluto contra um mal absoluto foi criada por Zoroastro, que teria vivido no Irã. Essa ideia foi transmitida ao judaísmo e depois ao cristianismo. Nossa civilização também é herdeira do império persa, não se trata de uma cultura exótica”, destacou Hilu.

Crimes de guerra anunciados

Dentre os muitos crimes de guerra cometidos ao longo da história, inclusive pelos Estados Unidos, o professor Gustavo Vieira destaca que a novidade sob o governo Trump é o desrespeito aberto e contínuo ao direito internacional.

“Mesmo em situações como a invasão da Ucrânia pelo presidente Putin, ele se reúne com o secretário-geral da ONU e alega respaldo no direito internacional para suas ações”, afirmou.

O professor da Unila ressaltou que o direito internacional foi conquistado a duras penas após diversos crimes contra a humanidade, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, representando um esforço coletivo para superar o imperialismo.

“São ameaças recorrentes de violações ao direito internacional, em graus variados. Esse direito foi construído com muito esforço e sofrimento, e é resultado de muita dor e sangue. Os Estados entram em certos acordos e consensos muitas vezes somente após erros graves consolidados”, completou Vieira.

Autoridades iranianas informam que pelo menos 300 unidades de saúde e cerca de 600 instituições educacionais, incluindo escolas e universidades, foram atacadas por Israel e Estados Unidos desde 28 de fevereiro. Dezenas de instalações e trabalhadores da saúde também sofreram ataques no Líbano.

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