Economia
Mulheres ganham espaço na liderança, mas desigualdade persiste
O desejo de avançar na carreira é comum a todos os trabalhadores, mas para as mulheres, esse percurso tem sido historicamente mais desafiador. Nos últimos anos, esse panorama vem mudando. Hoje, as mulheres ocupam 39% dos cargos de liderança no Brasil, um número que não corresponde à sua participação no mercado de trabalho.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade da população economicamente ativa no país é feminina, mas essa proporção não reflete nos cargos de comando, ficando abaixo de 40%. Com o crescimento das discussões sobre igualdade de gênero e diversidade nas empresas, além da importância disso para o sucesso dos negócios, esse quadro vem sendo modificado.
Por outro lado, o instituto revelou que a presença das mulheres aumentou em 8 dos 15 principais setores econômicos nos últimos anos, conforme análise da mentora de liderança e palestrante Gabriela Didier.
“Esse avanço ocorre porque o mercado atual exige líderes mais humanos, com inteligência emocional, escuta ativa, comunicação e pensamento estratégico, características nas quais as mulheres se destacam”, afirmou Gabriela Didier.
Um estudo da Fundação Getúlio Vargas mostrou que empresas que promovem uma cultura de confiança, empatia e escuta ativa conseguem reduzir a rotatividade de funcionários em até 25% e aumentar a produtividade.
No entanto, ainda há resistência para que mulheres sejam nomeadas para posições de liderança. Muitas optam por empreender, já representando um terço dos empreendedores e sendo responsáveis por 52% dos lares, segundo Gabriela.
Análise
A diferença na ocupação de cargos entre homens e mulheres no mercado de trabalho pode ser comparada a uma pirâmide invertida, explica Gabriela Didier. Nas funções iniciais, o equilíbrio entre gêneros é próximo de 50%, mas essa presença diminui conforme as posições hierárquicas aumentam.
Mesmo com maior escolaridade, as mulheres enfrentam um “funil de exclusão” no mercado, causado por fatores estruturais e culturais. O sistema corporativo ainda valoriza a disponibilidade extrema, desconsiderando a dupla jornada que a maioria das mulheres enfrenta, responsáveis pelos cuidados da casa e da família, impactando suas carreiras.
Para superar esses desafios, é necessário promover mudanças estruturais, revisar critérios de promoção e implementar políticas que considerem a realidade social das mulheres no ambiente de trabalho.
Estratégias para o crescimento
Gabriela Didier destaca que o primeiro passo para as mulheres que desejam progredir é fortalecer a autoestima e consolidar a autoconfiança como parte da estratégia profissional.
“É fundamental que as mulheres reconheçam seu valor e invistam nesse desenvolvimento, o que ajuda a criar um diferencial competitivo e a combater a síndrome da impostora”, disse.
Pesquisas de 2025 indicam que as mulheres tendem a se candidatar a vagas de liderança somente quando acreditam preencher 100% dos requisitos, enquanto os homens se candidatam com cerca de 60%. Essa diferença está relacionada a padrões internos de autocrítica e busca pela perfeição, que podem levar à autossabotagem.
Desenvolver segurança e estar disposta a correr riscos calculados são etapas importantes para o crescimento profissional.
O papel das empresas
A participação feminina em cargos de liderança deve ser uma prioridade estratégica, apoiada por políticas afirmativas, práticas de gestão inclusivas e ambientes que promovam segurança psicológica.
Um exemplo é a empresa Solar, que monitora sua agenda de diversidade com indicadores claros. Em 2025, as mulheres representaram 26% do quadro total e 33% das posições gerenciais, acima da média do setor industrial brasileiro.
Segundo Emiliana Albanaz, diretora de Recursos Humanos da Solar Coca-Cola, 70% das vagas de liderança foram preenchidas por colaboradores internos, resultado de ações estruturadas de formação desde os níveis iniciais de gestão.
A empresa implementa programas específicos de desenvolvimento, como a Universidade Corporativa Universo Solar e a parceria com a The Coca-Cola Company através do WeMentoring, além de políticas de apoio à parentalidade, como licença-maternidade estendida e salas de amamentação.
Emiliana Albanaz, que ocupa cargo de liderança desde 2020, ressalta que o crescimento da presença feminina na empresa foi resultado de decisões firmes e liderança comprometida.
“Construí minha carreira em ambientes predominantemente masculinos, exigindo resiliência e preparo técnico. Liderar equipes masculinas demandou capacitação constante, escuta ativa e uso de dados para consolidar a credibilidade”, destacou.
O maior desafio continua sendo estrutural, especialmente na desigualdade na divisão das responsabilidades domésticas.
Para Emiliana, o papel das empresas é crucial, sendo necessário criar políticas voltadas à saúde, ao bem-estar e ao suporte emocional para reter e promover o talento feminino de forma sustentável.
Gabriela Didier finaliza que o avanço das mulheres na liderança é construído com preparação, coragem e ambientes que transformem oportunidades em permanência e poder de decisão.

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