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Dante de Oliveira e as diretas Já: O fenômeno político que redesenhou o Brasil

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Quando um engenheiro civil de 37 anos chegou a Brasília em 1983 para seu primeiro mandato como deputado federal, poucos imaginavam que aquele parlamentar iniciante vindo de Mato Grosso protagonizaria um dos capítulos mais marcantes da história política brasileira e daria nome ao movimento que levaria milhões às ruas: as Diretas Já.

Dante Martins de Oliveira não tinha o perfil típico dos grandes líderes da redemocratização. Enquanto nomes como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves carregavam décadas de experiência política, Dante era apenas mais um entre centenas de deputados. Mas havia nele algo que faria toda a diferença: a recusa em aceitar que as coisas só poderiam mudar devagar.

Em março de 1983, ainda nos primeiros dias de seu mandato, Dante protocolou a Proposta de Emenda Constitucional nº 5, que pretendia restaurar as eleições diretas para presidente da República já em 1985. Na prática, significava encurtar em um ano o cronograma de abertura política que os militares haviam estabelecido.

Em poucos meses, a emenda ganhou as ruas sob o slogan Diretas Já, movimento popular que se transformou em um verdadeiro fenômeno social.

Em 1984, o Brasil vivia um momento de esgotamento: inflação galopante, recessão econômica e o desgaste evidente do regime militar, após duas décadas no poder. A promessa de abertura ‘lenta, gradual e segura’ já não satisfazia uma população que exigia participação política imediata.

A campanha das Diretas Já explodiu no início de 1984, com uma série de comícios que se tornaram cada vez maiores e mais audaciosos. A emenda de Dante de Oliveira deixou de ser apenas uma proposta parlamentar para se tornar o grito de uma nação inteira.

As manifestações tomaram conta de toda sociedade. Artistas famosos, jogadores de futebol, sindicalistas e acadêmicos se uniam sob a mesma bandeira amarela. Milhões foram às ruas com um recado claro: o Brasil inteiro queria votar.

Apesar da pressão vinda das ruas, o regime militar não estava disposto a ceder sem resistência. Nos dias que antecederam a votação marcada para 25 de abril de 1984, Brasília se transformou em praça de guerra.

Tropas do Exército ocuparam posições estratégicas na Esplanada dos Ministérios. Emissoras de rádio e televisão foram proibidas de transmitir o debate para impedir que o país assistisse ao que poderia ser o fim simbólico da ditadura.

O placar final foi devastador: 298 deputados votaram a favor da Emenda Dante de Oliveira, 65 contra, três se abstiveram. Eram necessários 320 votos, e faltaram apenas 22.

A frustração tomou conta do Brasil. Nas ruas, multidões choraram. Nos jornais, a notícia era o fracasso do movimento. Mas a história mostraria que aquela derrota foi, na verdade, uma vitória estratégica fundamental.

As mobilizações das Diretas Já haviam feito algo que nenhuma estratégia política tradicional conseguira: deslegitimaram completamente o projeto de transição controlada pelos militares.

Embora a eleição de 1985 ainda tenha sido indireta – com Tancredo Neves escolhido pelo Colégio Eleitoral -, o processo já não poderia seguir os termos planejados pelos militares e a transição para a democracia foi mais rápida e abrangente do que a inicialmente prevista.

O movimento culminou na Assembleia Constituinte de 1987-1988, que produziu a ‘Constituição Cidadã’. Em 1988, o voto direto para presidente foi finalmente garantido. Em 1989, pela primeira vez em 29 anos, os brasileiros escolheram seu presidente pelo voto direto.

Tive a honra e a felicidade de chamar Dante de Oliveira de amigo. O pai das Diretas Já foi meu grande mestre na política. Ele não me ofereceu apenas um degrau, ele me deu uma escada inteira para que eu pudesse subir o primeiro degrau e continuar a vida na política.

Dante é, sem dúvida, além de um dos maiores líderes políticos do Brasil, o maior líder político que tive na minha história, e o político que mais admiro. Me inspiro muito em Dante, e me inspirei, em todos os meus mandatos, na coragem, no espírito público incomparável e em sua capacidade única de agregar.

Quarenta e dois anos depois, a história de Dante de Oliveira e do movimento Diretas Já permanece atual por uma razão simples: a mudança política genuína vem do anseio das famílias, de quem trabalha, de quem produz. Ela vem do povo. Viva o legado do gigante Dante de Oliveira!

Nilson Leitão, ex-deputado federal por Mato Grosso.

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